quarta-feira, 20 de julho de 2011

APÓS SEIS MESES, PRIMAVERA ÁRABE SEGUE E SINALIZA ABERTURA POLÍTICA

Mundo, quarta-feira, 20 de julho de 2011

 
Felipe Prestes e Igor Natusch

Quem esperava uma onda de mudanças no mundo árabe, após as revoltas populares do começo do ano, pode interpretar o atual momento como pouco animador. Afinal, apenas dois países – Egito e Tunísia – derrubaram governos autoritários e ainda buscam um novo modelo político. Enquanto isto, outros países vivem confrontos sangrentos, especialmente a Líbia, com uma guerra civil que não dá sinais de solução. Pouco mais de seis meses depois da queda do ditador tunisiano Zine al-Abidine Ben Ali, ocorrida em 14 de janeiro, a “Primavera Árabe” pode não render manchetes como antes, mas ainda está longe de seu fim. Até o momento, a realidade indica um movimento em direção à democracia – embora não seja a democracia que nossos olhos ocidentais estão acostumados a ver.

Leia mais:– Qual é a situação de cada país árabe após os protestos populares


Antônio Jorge Ramalho da Rocha, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), identifica no mundo árabe sinais que apontam para uma flexibilização dos regimes, algo que vai além de Egito e Tunísia. “Não diria democratização, porque a palavra tem uma conotação inadequada no caso, mas vejo uma tendência a um grau menor de autoritarismo e uma comunicação maior entre governantes e governados”, avalia. Governos de países como Marrocos, Argélia e Iêmen, cientes de que não poderão se manter na base da força, sinalizam com a abertura gradativa e parcial. “Parece haver uma compreensão de que é preciso fazer concessões, de forma que a insatisfação da população não se avolume ainda mais. Com a maior circulação de informações, amplia-se o acesso do povo a instrumentos de pressão”, afirma.

O professor Renatho Costa, da Unipampa, concorda com essa leitura, mas faz ressalvas. Segundo ele, as particularidades de cada país indicam diferentes pressões internas. “Alguns países podem fazer concessões, mas o autoritarismo está na base de alguns regimes. O vício autoritário pode ser retomado se determinados reis ou ditadores sentirem-se ameaçados”. Mas o professor admite que a mudança de panorama é perceptível. “Há uma mudança na percepção do poder da população”, diz. “Para permanecer no poder, os governos estão entendendo que precisam negociar. Mesmo que alguns países façam uma repressão mais dura, há uma inclinação geral pela adoção de reformas”.
O professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Maurício Santoro, diz que as revoltas que obtiveram êxito ocorreram em países mais homogêneos, sem grandes tensões étnicas, tribais ou religiosas. São os casos de Egito, Tunísia e também do Marrocos, onde o rei Mohammed VI promoveu abertura significativa de seu regime. Em outros países, ditadores conseguiram utilizar divisões para obter o apoio de parte da população. “Nos países mais fragmentados ditadores conseguem explorar as diferenças para se manter no poder”, afirma.
O que Santoro diz é flagrante na Líbia e no Iêmen, onde há fortes divisões tribais, e na Síria em que uma minoria étnico-religiosa, os alauítas, detém o poder político diante de uma população majoritariamente sunita. Nestes países, os governos autoritários têm conseguido reagir, mas, segundo Santoro, na Síria e na Iêmen a tendência também é de maior abertura. “No Iêmen há uma negociação avançada que pode culminar com a renúncia de Ali Abdullah Saleh. Na Síria, não está claro se Bashar al-Assad conseguirá se manter no poder, mas se conseguir será de forma negociada”.

Líbia: conflito não deve ter solução tão cedo

No momento, a Líbia é o campo de batalha onde a marca ocidental se faz mais presente. Desde março, tropas internacionais sob comando da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) bombardeiam o país e tentam garantir a saída de Muammar Kadafi do poder. No entanto, o conflito se arrasta, e o ditador líbio não parece dar sinais de que vá desistir – ainda que o governo dos Estados Unidos já tenha reconhecido oficialmente a autoridade rebelde como legítima governante da Líbia.

Para Antônio Jorge Ramalho da Rocha, da UnB, o conflito na Líbia seguirá se arrastando por muito tempo. “O emprego da força mostrou-se um erro, ainda mais nos termos colocados pela resolução da ONU. Acabou fortalecendo Kadafi junto a seus acólitos, já que agora ele pode se enrolar na bandeira nacional e se colocar como alguém que resiste a um invasor externo”, argumenta. “Era uma situação complexa, já que parecia claro que Kadafi usaria força contra o próprio povo. O dilema era se omitir, deixando os rebeldes à própria sorte, ou agir, o que também traria consequências. Mas alguns países (do ocidente) foram contrários desde o início à intervenção, e a ação da OTAN não produziu resultados”.

“A Líbia ainda é uma carta aberta”, diz Renatho Costa, da Unipampa. O especialista detecta não apenas um confronto em aberto pelo poder líbio, mas uma luta das forças ocidentais por uma influência maior na região. “Kadafi não tem mais condições de permanecer, não é mais líder nacional. As batalhas já estão fora deste tabuleiro”, sustenta. Como exemplo, o professor cita a decisão da Rússia de não aceitar o Conselho Nacional de Transição, instituído pelos rebeldes, como legítimo governo da Líbia – decisão que foi anunciada recentemente pelos EUA. “Apoiar o governo paralelo, na prática, é alinhar-se com os Estados Unidos”, observa.

Maurício Santoro concorda. “O impasse não deve se resolver em pouco tempo. A intervenção não demonstrou força nem para impelir Kadafi a uma negociação”, diz. O professor da FGV ressalta que as potências envolvidas com a intervenção tem hoje preocupações internas muito maiores, com a crise econômica que abala Europa e Estados Unidos, o que certamente prejudica a luta contra o regime líbio.
 
 
Egito e Tunísia terão eleições no final do ano, mas seguem instáveis
 
 
Egito e Tunísia mantêm governos provisórios até o final do ano. O Egito, maior país árabe, terá eleições para uma assembleia constituinte em novembro. Na Tunísia, o mesmo pleito ocorrerá em outubro. Caberá a estas assembleias definir o sistema político e eleitoral para que a população escolha um novo governo. Enquanto isto não ocorre, os protestos continuam.
 
 
No Egito, manifestantes pedem a saída de todo e qualquer integrante do governo que tenha participado do regime do ditador Hosni Mubarak. Além disto, há uma preocupação crescente com a influência que o exército egípcio terá sobre o novo governo. São as Forças Armadas que estão à frente do governo provisório. Maurício Santoro acredita que os militares não tentarão manter o poder político e realizarão as eleições, mas explica que, de qualquer forma, continuarão com muito poder. “O exército parece comprometido com eleições, mas deve manter o seu poder, mesmo com uma ordem democrática. As Forças Armadas no Egito controlam várias empresas, têm muito poder econômico”, destaca.


Tentando acalmar os ânimos, o regime de transição promoveu nesta terça-feira (19) mudanças em mais de 15 ministérios – mantendo, porém, nomes da velha guarda, como o ministro do Interior, Mansour Essawy, ligado ao regime de Mubarak. A indefinição política se reflete na economia, bastante desestabilizada. Não à toa, o ministro das Finanças foi um dos que teve sua cabeça cortada. O governo provisório tem distribuído alimentos aos egípcios.
 
 
Na Tunísia, a situação não é diferente. Já em fevereiro, a população tratou de correr o primeiro-ministro interino Mohammed Ghannouchi por ele ter sido tradicional aliado do ditador Ben Ali. Mudanças nos ministérios também têm sido recorrentes. O atual premiê, Beji Caid Essebsi, tem demonstrado preocupação ainda com os conflitos nas ruas, porque teme pela segurança na realização das eleições em outubro. Na segunda (18), um garoto de 14 anos foi morto por uma bala perdida disparada por forças de segurança, durante um protesto em uma pequena cidade próxima a Sidi Bouzid.
 
 
Não por acaso foi em Sidi Bouzid, cidade no centro do país, que tudo começou, em dezembro de 2010, quando um jovem desempregado ateou fogo ao próprio corpo. A Tunísia tem um nível de vida razoável se comparado aos demais países do Norte da África, mas sofre com uma crise econômica e com uma desigualdade entre o litoral e o interior do país. É no interior que vive a maioria dos 700 mil tunisianos desempregados, número extremamente significativo para uma população economicamente ativa de apenas três milhões de pessoas.

Democracia com islamismo: Turquia pode servir de modelo

Na Tunísia, os conflitos também ocorrem entre intelectuais que defendem o estado laico e extremistas islâmicos. Estes últimos vêm ganhando terreno nas ruas desde a queda de Ben Ali, mão não se vêem contemplados no atual governo provisório. Jovens islâmicos já atacaram diversas delegacias de polícia nos últimos dias. Um exemplo ilustrativo dos conflitos ocorreu no final do mês de junho. Na capital do país, Túnis, ativistas religiosos quebraram os vidros de um cinema que passava o filme “Nem Alá, nem o Mestre”, em defesa do estado laico, e entraram em conflito com um grupo de advogados. Os islâmicos acabaram sendo presos.


Apesar disto, o partido político tido como o mais forte na Tunísia é o Al-Nahda (Partido do Renascimento, em português), que no mês de junho se retirou das conversas sobre a transição, acusando outros partidos de abuso de poder. O líder do partido, Rachid Ghannouchi, retornou ao país apenas 15 dias depois da queda de Ben Ali, após 20 anos de exílio. Em entrevista recente ao El Pais, Ghannouchi afirmou que é contra o extremismo, e que sonha em “conjugar islamismo com modernidade”. Quer a religião na Constituição, mas com igualdade entre gêneros, por exemplo. E cita como paradigma a Turquia, governada desde 2003 pelo partido Justiça e Desenvolvimento.


Para Maurício Santoro, o governo da Turquia deve balizar os novos regimes democráticos entre os países muçulmanos. “O que está se desenhando é um tipo de Estado onde a religião não domina a sociedade, mas tem papel importante na definição das leis, dos costumes e sobre os partidos políticos. A Turquia mostra que é possível ter um partido como este no poder, convivendo com liberdades democráticas”, avalia. O professor de Relações Internacionais ressalta, contudo, que isto não livrará estes países de tensões entre as liberdades individuais e a religião islâmica, tensões que ocorrem na própria Turquia.
Santoro vê mais força do islamismo na Tunísia que no Egito. Ele afirma que a Irmandade Muçulmana tem se fragmentado desde a revolta, principalmente porque os jovens do movimento não têm seguido à risca os ditames de seus líderes. Além disto, ressalta que a interferência religiosa na política sempre foi limitada por leis no Egito e que há uma minoria cristã que não pode ser desprezada. Ele lamenta que as eleições sejam realizadas em um prazo exíguo para a formação de novas organizações. “O prazo prejudica a participação do elemento mais inovador da revolução, que foram os jovens”.


Renatho Costa, da Unipampa, acredita que ocorre disputa de influência entre autoridades islâmicas e forças ligadas ao Ocidente. Ele acredita que o modelo que for adotado especialmente pelo Egito poderá servir como base para outros países árabes e ter grande influência sobre a região. “(Egito e Tunísia) são dois palcos onde se disputa pelo futuro de todo o Oriente Médio. O modelo que prevalecer ali vai ter amplas possibilidades de ditar regras políticas para todo o mundo árabe. Se a influência islâmica prevalecer nesses dois palcos, em especial no Egito, isso certamente provocará uma grande mudança geopolítica em toda a região”, prevê.
De qualquer modo, o panorama que surge aos poucos no mundo árabe aponta para algo novo, que vai além da visão ocidental sobre a região. Renatho, que recentemente passou dois meses no Irã, exemplifica com o que ouviu em conversa com aiatolás locais. “Discuti com alguns deles sobre as perspectivas que viam a partir das mudanças no Egito”, conta, “e eles se manifestaram de forma muito positiva. Para eles, o país pode passar por um processo semelhante (ao do Irã), integrando-se em uma comunidade islâmica. É uma visão diferente da nossa, que não tem o nosso olhar de integração pela ocidentalização”.



sexta-feira, 17 de junho de 2011

MAIS UMA PRIMAVERA HISTÓRICA, OS ÁRABES PLANTAM FLORES NOS DESERTOS


RESUMO
A partir do início do século XX a dominação dos povos árabes do norte da África e Oriente Médio intensificou-se. As potências passaram a controlar os países e financiar ditadores. Em 2010-11 várias revoltas surgiram nesses países, clamando por liberdade e democracia. O Ocidente foi colocado em xeque, pois deve aceitar a autodeterminação dos povos ou continuar preservando seus interesses geopolíticos na região?


PALAVRAS CHAVE:
Primavera Árabe; Revoluções; Ditadura


ABSTRACT:
From the begining of the twentieth century the domination of the Arab peoples of North Africa and the Middle East has been intensified. The Powers came to control these countries and support dictators. In 2010-11 several uprisings emerged in these countries, calling for freedom and democracy. The West was put in check; must it accept the self determination of the peoples or continue to preserve its geopolitical interests in the region?


KEY-WORDS:
Arab Spring; Revolutions, Dictatorship


Artigo completo disponível em: http://seer.ufrgs.br/ConjunturaAustral/article/view/19393

sexta-feira, 15 de abril de 2011

SÍRIA E LÍBIA: DUAS PEDRAS ÁRABES NO SAPATO DO OCIDENTE

Mundo, sexta-feira, 15 de abril de 2011


Igor Natusch


As potências ocidentais, acostumadas a intervir de forma nem sempre suave nos assuntos relativos ao mundo árabe, estão tendo que encarar duas questões bastantes espinhosas no tabuleiro político internacional. Além da intervenção na Líbia, que se arrasta há quase um mês sem apresentar sinais de solução, o Ocidente começa a dar sinais de especial preocupação com a situação de outro país árabe, a Síria. Aliado do Irã, país cuja simples menção provoca calafrios nos EUA, e famoso refúgio para líderes fundamentalistas, o novo personagem nesse cenário de revoltas populares tem potencial para criar sérias dores de cabeça aos países ocidentais, em um delicado xadrez que ainda deve render muitos lances imprevisíveis.

A Síria é governada desde 1971 pela família al-Assad. Nas últimas semanas, as ruas de várias cidades sírias foram tomadas por manifestações pedindo mudanças no regime, que está desde 2000 nas mãos de Bashar al-Assad. No momento, o governo da Síria fez apenas algumas vagas promessas de abertura, ao mesmo tempo que critica o “complô internacional” que estaria tentando derrubar o governo sírio.

O professor Renatho Costa, do curso de Política e Relações Internacionais da Unipampa, lembra que o governo da Síria está nas mãos de uma minoria alauita, quando a população do país é, em sua maioria, do grupo sunita. “Desde antes de Bashar al-Assad, o poder sempre foi mantido pela força, com a preocupação de desestimular qualquer movimento de oposição, mesmo que à custa de massacres”, descreve o professor.

A Síria era aliada da União Soviética durante os tempos de Guerra Fria, o que impedia intervenções mais concretas dos EUA e consolidou as atuais estruturas de poder no país árabe. A partir de 2005, com a pressão sobre a Síria para que desocupasse o Líbano, a posição do país foi enfraquecendo gradualmente. “Não existe tolerância internacional ao regime da Síria”, afirma Renatho Costa. Isso se soma, segundo o professor da Unipampa, à visão de muitos países ocidentais, que consideram a Síria uma “apoiadora do terrorismo”, na medida em que oferece asilo a líderes de grupos como o Hamas e o Hezbollah.

Antônio Jorge Ramalho da Rocha, do Instituto de Relações Internacionais da UnB, vê a questão de forma um pouco diferente. “A Síria é vista pelo Ocidente como tendo um papel estabilizador na geopolítica árabe, ainda que não necessariamente de forma positiva”, argumenta. “É um país que tem liderança na região, que exerce influência na questão da Palestina, na Jordânia, em movimentos como o Hamas, e que acaba influenciando na questão de Israel também. Qualquer mudança no regime sírio terá implicações em todos esses aspectos”, diz ele.

Alberto Pfeifer, professor e analista de Conjuntura Internacional da USP, identifica na Síria um quadro semelhante ao do Egito, com uma mobilização espontânea da população, sem líderes, ainda que com sinais claros de coordenação. “A impressão é de que a pressão não vai diminuir até que a mudança aconteça de fato, indo além de mudanças de alguns nomes do ministério”, diz Pfeifer.

Nesse sentido, segundo Alberto Pfeifer, a posição das forças armadas da Síria será decisiva para ditar os rumos da rebelião. No momento, a repressão aos revoltosos sírios está a cargo da polícia política, sem envolvimento direto dos militares. “No Egito, por exemplo, as forças armadas não atuaram em favor do governo, o que diminui sua margem de resistência”, explica o professor da USP. “O termômetro, no caso da Síria, é Damasco. Se a rebelião tomar conta das ruas da capital, vai ser difícil segurar sem uso da força. E aí será preciso ver que direção o exército vai tomar”.


Relação da Síria com Irã dificulta ação mais
firme do Ocidente


Na leitura de Renatho Costa, o governo sírio está sinalizando com negociações, na medida em que o uso da força não tem conseguido diminuir os protestos e a comunidade internacional deixa cada vez mais clara sua insatisfação com o regime de Bashar al-Assad. “Penso que talvez já seja tarde demais para isso, até porque é um regime que nunca foi visto como legítimo”, ressalva. O especialista acredita que a pressão internacional sobre Assad devem ganhar intensidade, no sentido de uma abertura política e de eleições livres, nas quais o atual governante e seus partidários estejam impedidos de concorrer. “Uma intervenção militar de países ocidentais me parece distante, mas a campanha contra o atual governo certamente deve se tornar bem mais intensa”, acredita Renatho.

Um sinal dessa pressão surgiu durante a semana, quando o governo dos EUA passou a manifestar insatisfação com uma eventual ajuda do Irã ao governo sírio. Segundo os norte-americanos, o governo de Mahmoud Ahmadinejad estaria apoiando, inclusive materialmente, a repressão estatal aos revoltosos que pedem a queda de Bashar al-Assad. “Se a Síria está pedindo ajuda ao Irã, não demonstra ter uma postura séria em relação a verdadeiras reformas”, criticou o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Mark Toner.

“O interesse ocidental na manutenção do regime sírio depende da relação com Israel e Irã”, argumenta Alberto Pfeifer, da USP. Segundo o professor de Relações Internacionais, a ligação de Síria e Irã é notória, ao mesmo tempo que a postura com relação a Israel ajuda a manter “certo equilíbrio” no panorama geopolítico da região. “Síria mantém certa tensão contra Israel, mas não ataca diretamente. É uma postura menos indesejável, para os países ocidentais, do que uma hostilidade declarada aos israelenses”, afirma. Renatho Costa, da Unipampa, acrescenta que a ligação entre Síria e Irã surgiu especialmente devido às relações de ambos os países com a organização fundamentalista Hezbollah.

“A equação EUA x Irã é bastante complicada, e contamina de forma negativa todo o mundo árabe”, diz Antônio Jorge Ramalho da Rocha, da UnB. O professor lembra que a posição do Irã na geopolítica árabe fortaleceu-se nos últimos anos, “muito por políticas equivocadas do próprio governo norte-americano”. Para ele, é justamente essa relação difícil que inviabiliza uma intervenção ocidental mais firme na Síria, na medida em que a proximidade do regime de Bashar al-Assad com o Irã é indiscutível. “A Síria não está isolada no mundo árabe, como a Líbia, por exemplo. Todos (os países ocidentais) demonstram estar temerosos com as implicações de uma ação mais severa no país. Uma proposta de intervenção como a que foi aprovada contra (Muammar) Kadafi não passaria na ONU”, argumenta.


Alberto Pfeifer: “operação contra Kadafi é um fracasso”

Intervenção essa, aliás, que não parece estar conduzindo o conflito na Líbia a uma conclusão mais rápida. Próxima de completar um mês, a ação aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU não diminuiu sensivelmente os confrontos no país, e tampouco parece ter abalado decisivamente a posição de Muammar Kadafi à frente do regime.

A esse respeito, Alberto Pfeifer, da USP, é categórico. “Do ponto de vista militar, a operação é um fracasso”, dispara. “A Otan não consegue afastar do poder um ditador supostamente enfraquecido, que já não tem controle de metade do seu próprio território”. No aspecto político, a situação da coalizão também não é das melhores, segundo Pfeifer. “A ação já nasceu enfraquecida, sem o apoio de países importantes como Alemanha, Rússia e China”, explica o professor. A França teria interesse em ver suas empresas explorando o mercado de petróleo da Líbia, enquanto a Itália, um dos principais compradores da nação árabe, acaba se vendo forçada a adotar postura mais cautelosa. “É um jogo político e econômico bem complexo”, descreve Pfeifer.

Renatho Costa, professor da Unipampa, não usa termos tão enfáticos quanto os de Alberto Pfeifer. Segundo ele, ainda não dá para dizer que a iniciativa contra Kadafi tenha fracassado. “Não vislumbro um recuo, e sim um recrudescimento”, afirma. Para ele, o maior causador de indefinição na ação contra o governo líbio é a dificuldade de vislumbrar um consenso pós-Kadafi que permita um governo de transição. “Mesmo a legitimidade dos rebeldes de Benghazi, do ponto de vista político, é questionável”, afirma. “É um grupo que se formou para enfrentar um ditador, mas não parece que ele tenha consistência para apontar um nome de consenso, para unir a Líbia durante um período de transição”.

“Era uma faca de dois gumes”, comenta o professor da UnB Antônio Jorge Ramalho da Rocha. “Por um lado, era muito difícil para a ONU omitir-se, na medida em que estava clara uma situação de guerra civil e havia risco de uma matança no país. Por outro, Kadhaffi não é o tipo de líder que vá negociar sua permanência no poder, seja em que termos forem”. A ação contra Kadhaffi, em certo sentido, serviria até mesmo para fortalecer sua posição, na medida em que o ditador usa os bombardeios da coalizão como forma de galvanizar seus apoiadores e descaracterizar o esforço internacional como uma iniciativa buscando apenas o controle dos recursos minerais da Líbia.

Para o professor da UnB, a redação da resolução do Conselho de Segurança da ONU é muito aberta, o que também acaba fragilizando a ação internacional. “Os limites para o emprego da força não estão bem estabelecidos”, critica Rocha. É justamente essa ambiguidade que motivou a abstenção de alguns países na votação que autorizou a iniciativa, entre eles o Brasil. “Na linguagem diplomática, abster-se de votar é estar em desacordo com o que está sendo votado”, acentua o mestre em ciência política.


Tendência é de conflito longo na Líbia,
diz professor da UnB


“A margem de negociação diminui a cada dia”, diz Renatho Costa, que prevê uma intensificação da pressão internacional sobre a Líbia. Segundo o professor de Relações Internacionais da Unipampa, só deve haver uma saída negociada no momento em que as forças de Kadafi não tiverem mais capacidade de resistência, o que pode levar bastante tempo. “Kadafi tem uma perspectiva quase messiânica a respeito da própria posição, é muito difícil que ele aceite abandonar o poder”, comenta. “A partir de agora, resta aos países da Otan ou assumir militarmente uma intervenção, inclusive por terra, ou insistir no financiamento e treinamento dos rebeldes líbios. É uma decisão que está sendo tomada com cautela, até pela ameaça de represálias de grupos extremistas árabes. É um momento de estudo”, descreve Renatho Costa.

Para Alberto Pfeifer, as potências ocidentais perderam a chance de trabalhar um movimento de oposição dentro da Líbia. “Hoje em dia, não existe nenhum sinal de que possa surgir um grupo político capaz de assumir o poder. O Ocidente poderia ter dado subsídios para que uma oposição se consolidasse na Líbia, para que um grupo mais coeso surgisse e a partir dele houvesse uma derrubada de Kadafi. Isso não foi feito”, critica. Para ele, a solução do conflito não será nada fácil. “Fazendo as contas, talvez Kadafi chegue à conclusão de que o exílio é uma solução mais conveniente, mas isso não parece nem um pouco provável”, diz o analista.

Antônio Jorge Ramalho da Rocha acredita que a única possibilidade de uma saída negociada está não em Muammar Kadhaffi, e sim nas pessoas que o cercam. “Não apenas a própria família de Kadafi, mas várias outras famílias influentes no regime da Líbia, estão sofrendo sanções e tendo contas bloqueadas no exterior”, exemplifica. “Talvez aí possa surgir uma pressão capaz de fazer Kadafi balançar, mas mesmo esse não é um cenário provável”, admite Rocha.

Para o professor da UnB, a tendência acaba sendo de um conflito longo, com boas chances de sair do espaço aéreo líbio e estender-se por terra. Nesse panorama, a falta de um cenário político consolidado na Líbia fortalece a capacidade de resistência de Kadafi. “Nem mesmo entre os filhos dele há uma definição sobre qual seria o sucessor. Muammar Kadafi sempre trabalhou com essa ambiguidade”, garante Antônio Jorge Ramalho da Rocha. Mesmo na eventualidade de sua deposição, Kadafi pode continuar sendo uma pedra no sapato das mais desconfortáveis. “Na medida em que não seja capturado, ele pode perfeitamente ser acolhido pelas famílias que o apoiam e desaparecer”, especula Rocha. “E Kadafi já deu sinais claros de que não tem escrúpulos para fazer uso do terror”.

Disponível em: http://sul21.com.br/jornal/2011/04/siria-e-libia-duas-pedras-arabes-no-sapato-do-ocidente

sexta-feira, 25 de março de 2011

INTERVENÇÃO NA LÍBIA DEBILITA KADAFI, MAS DIVIDE COMUNIDADE INTERNACIONAL

MUNDO - Sexta-feira, 25 de março de 2011.

Igor Natusch


Há uma semana, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou a resolução número 1973, prevendo uma série de medidas contra o ditador da Líbia, Muammar Kadafi. A decisão, que impõe uma zona de exclusão aérea, o embargo na venda de armamentos e autoriza “todas as medidas necessárias” para a proteção de civis, já debilitou a investida de Kadafi contra os rebeldes que buscam derrubá-lo, mas não foi recebida com aprovação unânime pela comunidade internacional. A própria votação que confirmou a intervenção militar internacional contou com cinco abstenções, entre elas a do Brasil, e sofreu críticas de países como China, Rússia e Paquistão.

Entre as críticas, vozes condenam os riscos oferecidos à população civil e a interferência militar internacional em questões que seriam de autodeterminação. Além disso, outra acusação, mesmo que velada, é comum: a de que os interesses humanitários da coalizão seriam, na verdade, uma desculpa para aumentar o controle das potências ocidentais sobre a lucrativa produção de petróleo da Líbia.

Segundo Eveline Brigido, mestre em Direito Internacional e professora de Relações Internacionais da ESPM, a coalizão tem “forte embasamento jurídico” para essa decisão. “Verdade que o Conselho de Segurança é o único órgão dentro da ONU que realmente tem poder político, já que apenas ele pode autorizar o uso da força. Nem a OTAN tem essa prerrogativa. Mas os países integrantes da ONU se comprometem a cumprir as determinações do Conselho, e o Kadafi tem adotado uma postura clara de enfrentamento”.

Além disso, lembra a professora, não é a primeira vez que Muammar Kadafi se posiciona de forma a ferir determinações do órgão internacional. Como exemplo, ela lembra o atentado de Lockerbie, na Escócia, ocorrido em 1988. No atentado, um avião da Pan Am foi destruído em pleno voo, causando 270 mortes. O líbio Abdel Basset al Megrahi foi julgado e condenado, e Muammar Kadafi foi considerado o mentor do ataque, informação confirmada em fevereiro de 2011 pelo ex-ministro Mustafa Abdel-Jalil.

“As polêmicas envolvendo a ação na Líbia são resultado, em boa parte, da relutância dos países ocidentais em tomar algumas iniciativas”, critica Maurício Santoro. “A zona de exclusão aérea, por exemplo, demorou tanto que, quando saiu, as tropas de Kadafi já estavam cercando Benghazi”. Isso, segundo ele, acabou influenciando em especial no conteúdo da resolução, que acabou sendo bem mais amplo do que o primeiro.


Renatho Costa, professor de Relações Internacionais da Unipampa, vê na resolução da ONU uma intenção de definir rapidamente os rumos do conflito. Mas tudo dependerá, segundo ele, da real extensão do apoio interno a Kadafi. “O primeiro objetivo, que é impedir o avanço de Kadafi sobre os rebeldes, parece ter sido bem-sucedido. O que vai acontecer daqui para frente é difícil de prever, mas é perceptível que, se as potências ocidentais acharem necessário intensificar os esforços para inibir novas ações de Kadafi, isso vai acontecer”.


“Se Kadafi não recuar, ONU não recuará”

“É uma das poucas resoluções do Conselho de Segurança que se posiciona pela defesa da população civil, de jornalistas e integrantes de organismos de ajuda humanitária” diz Eveline Brigido, da ESPM. “Não é algo previsto na carta da ONU. Além disso, existe um princípio de não intervir em situações de guerra civil, até para preservar a autodeterminação dos povos”.


Para Maurício Santoro, o documento aprovado pelo Conselho é bastante amplo, dando margem para uma série de ações. Mas mesmo essa decisão, na visão do jornalista e cientista político, mostra-se alvo de diversos questionamentos. “Tivemos várias abstenções, e a Alemanha está retirando tropas e navios do Mediterrâneo, para não ser levada a participar (da intervenção). São sinais de que há uma visível fragilidade na coalizão”.


Além disso, há preocupação com eventuais desgastes que uma longa ação possa trazer, como aponta Maurício Santoro. Inclusive no sentido de comparar a situação na Líbia com outras intervenções em países árabes protagonizadas por países ocidentais, em especial os EUA, “existe o fantasma do Iraque, com certeza”, lembra Santoro. “Tem até essa coincidência infeliz, de o começo da ação na Líbia coincidir com o aniversário de 8 anos da guerra no Iraque. Entrar de cabeça em uma luta por terra é um desgaste que os Estados Unidos quer evitar até onde for possível”.


De qualquer modo, Eveline Brigido acha possível que ações mais enérgicas sejam tomadas pela ONU. “Se o Kadafi não recuar, o Conselho de Segurança também não recuará”, acentua a professora. “Acredito que, se a atual decisão do Conselho não surtir efeito, o uso de tropas por terra pode ser autorizado, sim”.


Renatho Costa, da Unipampa, concorda. “Uma coisa é destruir a base de apoio (de Kadafi), atingir as estruturas de poder. Outra coisa é derrubar Kadafi. Isso só vai acontecer ou entrando com tropas terrestres, ou financiando milícias”. O professor de Relações Internacionais acredita que a segunda hipótese é mais provável, já que o desgaste político de uma intervenção por terra é muito grande. “Entrar é fácil, o difícil é retirar as tropas do país”, argumenta.


Um aspecto que pode acelerar a tomada de uma decisão nesse sentido é a quantidade de refugiados, que já começa a se tornar um problema para alguns países próximos. “O medo é que o caos da Líbia transborde para países vizinhos. A Argélia, por exemplo, faz fronteira com a Líbia e é um país que já teve protestos, que tem uma situação interna bastante complicada. O Egito já está recebendo muitos refugiados, e essa situação pode se estender até a Europa, com refugiados chegando até a França ou ao sul da Itália”.


Kadafi está isolado, mas ainda tem apoiadores dentro da Líbia


De acordo com os especialistas consultados pelo Sul21, ainda é cedo para determinar com alguma segurança quais serão os próximos desdobramentos na Líbia. Mas todos parecem concordar em um ponto: a situação de Muammar Kadafi é das mais complicadas. Dificilmente ele conseguirá resistir às investidas da coalizão – e a falta de apoio internacional torna tudo ainda mais difícil, mesmo que o ditador líbio garanta que resistirá até o fim.


“A opinião pública árabe está adotando uma postura cautelosa. A verdade é que a figura de Kadafi tornou-se muito rejeitada, como a de alguém de quem é necessário se livrar”, argumenta Maurício Santoro. “O apoio a ele é praticamente inexistente. Na Liga Árabe, apenas a Síria e a Argélia foram contra a zona de exclusão aérea. São dois países em um total de 22 membros. Isso dá uma noção de como Kadafi está isolado”. E mesmo esses apoios, segundo Santoro, atendem a interesses específicos. A Argélia, além de estar às voltas com protestos em seu próprio país, teme uma crise humanitária pela quantidade de refugiados que um ataque a Tripoli causaria. A Síria, por sua vez, é comandada pelo ditador Bashar el-Assad, talvez o governante árabe de maior afinidade com Muammar Kadafi.


De qualquer modo, Renatho Costa, da Unipampa, lembra que o ditador ainda conta com muito suporte dentro da própria Líbia. “Ele é um coronel, tem ascendência sobre as tropas, além de ter construído uma forte base de apoio com um processo de troca de favores. Muitos militares aproveitaram durante muito tempo as benesses do regime. Além disso, temos que lembrar que Muammar Kadafi é uma figura de grande carisma popular. Certamente temos uma boa parcela da população que ainda é fiel a Kadafi”.


Samuel Feldberg, pesquisador da USP, concorda. “São elementos que se beneficiam há mais de 40 anos do regime (de Kadafi). Existe toda uma estrutura de poder, que envolve muitas pessoas, e elas vão lutar para manter a situação como está”.


Petróleo influencia ação, mas não é fator principal


A alegação do Conselho de Segurança da ONU é de que a intervenção na Líbia é necessária para proteger vidas civis ameaçadas pelas atitudes violentas do regime de Muammar Kadafi. Porém, não são poucas as vozes que insinuam outros interesses na iniciativa internacional. A Líbia é um importante fornecedor de petróleo e gás natural para vários países da Europa. O gasoduto Greenstrean, que sai da cidade líbia de Mellitah rumo à Sicília, na Itália, é um dos principais fornecedores de gás para a Europa, usado especialmente para o aquecimento de residências. O país árabe também fornece combustível para países como a Espanha, por via marítima. Segundo críticos da ação da ONU, a proteção dos civis é apenas uma desculpa para uma ação de objetivos econômicos, para estabilizar o fornecimento de combustível e garantir o controle do Ocidente sobre as jazidas do país.


No entanto, o professor Renatho Costa não acredita que o domínio dos poços de petróleo seja o fator determinante da ação militar. “Se a ideia fosse intervir na Líbia apenas em nome do petróleo, isso já poderia ter acontecido muitos anos atrás. Kadafi comanda a Líbia há mais de 40 anos, teria dado apoio a grupos terroristas como IRA e OLP. Não acho que dê para separar as coisas, temos vários fatores que motivam essa intervenção. Claro que existem interesses políticos e econômicos, mas aspectos geopolíticos também estão sendo levados em conta”.


Maurício Santoro é outro que relativiza a importância do petróleo na decisão da ONU sobre a Líbia. “É um dos fatores, mas não o principal. A Líbia produz cerca de 1% do petróleo do mundo e já perdeu parte de sua importância como exportadora, com o crescimento de regiões como a Rússia e a África Ocidental”.


Para Samuel Feldberg, da USP, aspectos geopolíticos podem estar sendo mais importantes do que a conjuntura econômica. Ele destaca a questão dos refugiados da Líbia – que, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), já seriam mais de 300 mil. “Cinicamente falando, acho que essa é a única coisa que realmente preocupa (os países ocidentais)”, acentua. “Se o petróleo fosse mesmo o principal fator, a intervenção possivelmente aconteceria antes, e de forma mais direta”.


Para o pesquisador do Gacint, a importância da Líbia, na produção de petróleo, é relativamente modesta. “Claro que para alguns países, especialmente na Europa, trata-se de um fornecedor mais próximo, ou seja, há uma importância estratégica”, admite Feldberg. “Mas a produção de petróleo deles é de cerca de 1,7 milhão de barris (por dia), menos até do que a do Brasil (2,18 milhões de barris/dia)”. Em circunstâncias normais, a Líbia exporta 1,2 milhão de barris por dia, sendo que 85% são destinados a países da Europa.

Estruturar novo governo é grande desafio


Para Eveline Brigido, a verdadeira questão não é se Muammar Kadafi deixará ou não o governo líbio. “Tudo indica que Kadafi será indiciado no Tribunal Penal Internacional. Ou seja, ele deixará o governo em breve, seja da maneira que for”. A grande dúvida, segundo a especialista em Direito Internacional, é sobre o que virá depois, em um período pós-Kadafi. É o jornalista e cientista político Maurício Santoro quem desenvolve a questão. “São mais de 40 anos sem estrutura política, sem partidos, parlamento, sindicatos… O único poder realmente consolidado é o das tribos. Será um grande desafio organizar todos esses grupos em torno de algo mais ou menos estável”.


“O próprio poder de Kadafi foi consolidado a partir de acordos com lideranças tribais”, acrescenta Renatho Costa. “Se ele cair, não temos uma figura forte capaz de centralizar o poder político”. Além disso, o professor da Unipampa detecta outra possível consequência da queda do atual governante líbio. “O que vai ser feito com os apoiadores de Kadafi? Como evitar uma atitude revanchista contra eles? Em uma sociedade fragmentada, carente de instituições políticas, essa é uma questão difícil”, afirma.


“O ideal seria que os próprios líbios resolvessem a situação, construindo um governo de unidade nacional”, diz Maurício Santoro. “Mas essa seria uma expectativa bastante otimista. A necessidade de uma força de paz é bastante provável”.


“Serão tropas com uma finalidade diferente das que estão atuando agora”, explica Eveline Brigido. “A tarefa delas será de realizar operações de manutenção da paz dentro da Líbia, de modo que haja condições para a escolha de um novo governo, por meio de eleições diretas”.


“É possível que aconteça uma africanização das tropas, buscando usar militares de países da África e de países da Liga Árabe”, diz Maurício Santoro, considerando essa uma possível atitude para diminuir os impactos negativos de uma intervenção de longo prazo. “Mas a própria Liga Árabe está dividida quanto ao que está acontecendo na Líbia. Foram eles que solicitaram a zona de exclusão aérea, mas estão muito incomodados com os bombardeios”.


Disponível: http://sul21.com.br/jornal/2011/03/intervencao-na-libia-debilita-kadafi-mas-divide-comunidade-internacional/

quarta-feira, 2 de março de 2011

A CRISE DA LÍBIA E O OLHAR DO ESPECIALISTA

Caderno Internacional - Quarta-feira, 02 de março de 2011, p. 3
Por Cleizer Maciel

Para o professor do curso de Relações Internacionais da Unipampa em Livramento, Renatho Costa, a queda de Muammar Kadafi é apenas uma questão de tempo

O mundo assiste perplexo a uma crise que envolve diversos países do norte da África e que já culminou com a queda do ex-presidente do Egito, Hosni Mubarak. Protestos no Iêmen com alto teor de agressividade, resultado da organização de grupos que, mesmo trabalhando de forma praticamente isolada na forma de ser oposição aos governos, conseguiram encontrar o que pode ser considerado uma brecha histórica, e estão promovendo mudanças nas lideranças de seus respectivos países.

O grande alvo do momento, e que tem atraído para si os olhos da imprensa internacional e demais habitantes do planeta, chama-se Líbia. A revolta na Líbia em 2011 é uma onda de protestos populares com reivindicações sociais e políticas, iniciada em 13 de fevereiro de 2011 neste país e faz parte do movimento de protestos nos países árabes em 2010-2011. Tal como nas recentes revolução na Tunísia e revolução no Egito, os manifestantes exigiam mais liberdade e democracia, mais respeito pelos direitos humanos, uma melhor distribuição da riqueza e a redução da corrupção no seio do Estado e das suas instituições. O chefe de Estado líbio, Muammar Kadafi, também conhecido como Gaddafi, Kadhafi e Qaddafi, é o chefe de Estado árabe no cargo há mais tempo: lidera a Líbia há 42 anos.

Para o professor do Curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do Pampa - Unipampa, em Sant'Ana do Livramento, Renatho Costa, - Doutorando em História Social pela FFLCH/USP (2007), mestre em História Social, também, pela FFLCH/USP (2006); graduado em Relações Internacionais pela Faculdade Santa Marcelina (2003), com experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Relações Internacionais (assuntos relacionados ao Oriente Médio), atuando principalmente nos seguintes temas: Hezbollah, Líbano, Síria, Terrorismo, Israel, Irã, Iraque e Questão Palestina - o conflito pode estar perto do seu fim.

Nos últimos dias, Renatho foi entrevistado sobre o assunto na rádio CBN de São Paulo, no programa Fato em Foco. Na tarde de ontem, ele concedeu entrevista ao Jornal A Plateia. Para o professor, o tempo de Muammar Kadafi à frente do governo da Líbia já está completamente esgotado.
 
Entrevista


A Plateia: Em Sant'Ana do Livramento há uma comunidade muito grande de árabes, palestinos, libaneses, sírios, e líbios e que estão preocupados. Como o senhor analisa a crise na Líbia?


Renatho Costa: Não dá para analisar o que está acontecendo lá a partir de uma variável. Acho que o que temos percebido é que os regimes ditatoriais que tomaram países como a Libia e o Egito, tiveram um desgaste natural que gradualmente foi oprimindo e reduzindo o poder econômico das populações. Assim sendo, considero que o fator que propicia esses movimentos é a queda na capacidade econômica do povo e, gradualmente, também, esses regimes, pelo menos o Egito, eram mantidos por uma política norte- -americana que financiava a manutenção de uma liderança ali na região do Oriente Médio que atendia aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos. No caso da Líbia especificamente, era um país que contava com uma capacidade de produção de petróleo muito grande, e ela trilhou um caminho distinto. Kadafi apoiou diversas organizações terroristas, facilitou as transações de armas para o IRA e ETA, além de participar, também, de atentados terroristas, como o ocorrido em uma danceteria na Holanda. A partir daí foram impostas várias sanções contra a Líbia, o que fez com que se tornasse um país à parte, fechado, fazendo com que o seu mandatário tivesse o poder total impedindo que outros países interviessem ali. Algum tempo depois, o país foi reintegrado ao sistema internacional, mas a população continuava excluída. A partir do momento em que surgiram esses focos revolucionários em outros países, não há dúvida que isso facilitou o início desse movimento que estamos assistindo hoje. É uma situação gravíssima e a tendência é que, ou haja uma intervenção internacional de fato, ou ali pode acontecer um genocídio. A tendência é que ocorram muito mais mortes.

A Plateia: É possível fazer alguma vinculação com motivação religiosa nessa revolta?

Renatho Costa: Não, esse processo é anterior e se dá a partir do período de sua colonização que é muito mais antigo. Não há como fazer essa vinculação.

A Plateia: O Brasil tem assistido às repetidas crises que envolvem países da Europa e agora do Oriente e África do Norte, sendo alguns deles, produtores de petróleo como a Líbia, e o Brasil em fase de desenvolvimento. É possível afirmar que a crise, se chegar ao país, pode encontrar uma economia preparada e capaz de suportar mais este impacto?

Renatho Costa: Não sou um especialista em economia para tecer observações sobre o modelo econômico brasileiro, mas no que tange à minha área, em uma discussão um pouco mais política, posso dizer que o Brasil vem galgando um espaço maior no sistema internacional. Se há um país que não mais está em eterno desenvolvimento, esse é o Brasil.

A Plateia: Apesar do risco de uma invasão, o senhor acredita que os Estados Unidos possam invadir a Líbia?

Renatho Costa: Não acredito nessa possibilidade, uma vez que não é o estilo de Barack Obama. Agora, referendado por um Conselho de Segurança, tropas internacionais serem enviadas para lá para evitar que se expandam esses enfrentamentos e reduzir a ação das tropas fieis as de Kadafi, eu acho mais possível. Acredito que já esteja em um processo de negociação para que Muammar Kadafi deixe o poder. Muitos desses líderes têm suas fortunas bloqueadas em bancos do exterior e precisamos saber qual país vai recebê-lo. Não vejo um ataque pontual, mas não está descartado, uma vez que, caso ele mantenha essa posição tão dura, a comunidade internacional certamente vai atuar. Agora depende muito dele. Acho que essa semana ainda vamos ter uma reviravolta, já que a situação está insustentável na Líbia. Ou parte para o enfrentamento ou tenta um acordo.
 
Versão digital disponível em: http://www.aplateia.com.br/

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

PROGRAMA FATO EM FOCO - RÁDIO CBN

Programa exibido dia 19 de fevereiro de 2011, das 21h00 às 21h30

O ORIENTE MÉDIO CONTINUA AGITADO NESTA SEMANA

Nessa semana, o jornalista Roberto Nonato entrevista os professores Cristina Pecequilo (UNIFESP) e Renatho Costa (UNIPAMPA) sobre os últimos acontecimentos no Oriente Médio. Na pauta, a revolução que levou à queda de Ben Ali (Tunísia) e Mubarak (Egito), além de os movimentos do Bahrein, Iêmem e Líbia. 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A PARTIR DA TUNÍSIA E EGITO, PROTESTOS PODEM SE ALASTRAR PELO MUNDO ÁRABE



MUNDO, 04/02/11 / 21:19
Igor Natusch

Em janeiro, o povo tomou conta das ruas das principais ruas da Tunísia, recitando poemas do escritor Abul Qasim al-Shabi e exigindo a queda imediata do ditador Zine El Abidine Ben Ali. Entrando em fevereiro, temos a revolta popular que incendeia os corações do Egito, dizendo que setembro é longe demais e que Hosni Mubarak deve ir embora agora mesmo. As populações de outros países árabes, como Jordânia e Iêmen, já dão sinais de que não devem acompanhar os protestos de seus vizinhos apenas pelas emissoras estatais de televisão. Mais do que uma onda democrática, a sucessão de revoltas no Grande Oriente Médio lança um ponto de interrogação não apenas sobre o mundo árabe, mas sobre todo o panorama político-econômico mundial.

“É um dominó”, diz Samuel Feldberg, integrante do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional (Gacint) da USP. Embora não atribua as revoltas na Tunísia e no Egito a movimentos pan-árabes, o cientista político frisa que a intensidade dos protestos acaba chamando a atenção de todo o mundo. “Temos todo um processo de insatisfação, gerado por governos autocráticos, que motiva essa revolta popular. O presidente do Egito (Hosni Mubarak) está no governo há 30 anos, e dava sinais de que poderia se recandidatar ou conduzir o seu filho ao governo. Essa falta de perspectivas de mudança acaba ajudando a fermentar dessa insatisfação”.

O professor Márcio Scalércio, da PUC-RJ, diz que “não é novidade” que os países árabes tenham fortes manifestações nas ruas. “É praticamente uma tradição árabe”, comenta, lembrando de movimentações semelhantes ocorridas na Argélia, Líbano e Palestina. No caso específico do Egito, as condições de vida da população, somadas a um regime brutal e antidemocrático, acabam potencializando a indignação popular. “Acho uma bobagem dizer que o Egito está em ditadura há 30 anos. Na verdade, desde a descolonização do país que temos uma sucessão de governos sem nenhuma preocupação democrática”, afirma.

Claudia Musa Fay, professora de história da PUCRS, lembra que tanto Tunísia quanto Egito vivem (ou viviam) em regimes ditatoriais, que não se mostravam mais capazes de atender as necessidades das populações sob seu jugo. “No Egito, a maior parte da população é jovem. São pessoas que enfrentam uma situação de desemprego, e que acabam se informando pela Internet a respeito do que acontece em outros lugares”, explica.

Como a União Europeia está fechando as fronteiras para os imigrantes, a principal alternativa para os jovens desses países foi muito dificultada. “São jovens sem perspectivas em seus países, que não podem emigrar, e mesmo que entrem na Europa vão ter dificuldade para conseguir emprego. É um caldeirão, com todos os ingredientes para uma revolta popular”, diz Musa Fay.

Revolta que, segundo Márcio Scalércio, vinha sendo mantida em uma “fornalha branda” pela atuação brutal da polícia política de Hosni Mubarak, com prisões sumárias e a generalização da violência e da tortura no país. Renatho Costa, professor de relações internacionais da Unipampa, em Santana do Livramento, reforça essa visão. “Como Tunísia e Egito eram aliados do Ocidente, ninguém dava tanta atenção ao que acontecia nesses regimes”, afirma. “Agora, com esses levantes, começou a ficar mais claro esse caráter de violência e repressão”.

IRMANDADE MUÇULMANA PODE CHEGAR AO GOVERNO
Independente da postura de tempos idos, agora a comunidade internacional tem manifestado crescente preocupação com os rumos políticos do Egito — reflexo provável da incerteza que a mudança de regime trará para o cenário geopolítico da região. A organização mais forte da oposição a Mubarak, a Irmandade Muçulmana, desperta discussões sobre um possível caráter fundamentalista de um novo governo do país árabe. Além disso, líderes religiosos da Tunísia, que estavam exilados, durante o regime de Ben Ali, retornaram em meio à festa popular. Considerando exemplos como o do Irã, que derrubou o xá Reza Pahlavi e acabou sobre o jugo fundamentalista do aiatolá Ruhollah Khomeini, surgem temores de que algo semelhante possa ocorrem em outros países da região, apenas substituindo um regime autoritário por outro, de caráter religioso.

Renatho Costa, da Unipampa, não acha que seja “exatamente esse” o mote das manifestações que tomam conta do Egito e da Tunísia. Para ele, trata-se de uma reação inevitável a um governo altamente repressivo e desligado das necessidades de seu povo. Porém, o professor não descarta que essa luta por um novo governo sofra algum “desvio”, semelhante ao caso iraniano. “Se a Irmandade Muçulmana conseguir se tornar uma espécie de porta-voz, se alcançar os anseios mais imediatos da população, é algo que pode acontecer”, admite. E lembra que o grupo político-religioso foi muito perseguido no Egito nas últimas décadas, tornando-se quase um “paradigma” do modelo repressivo adotado por Hosni Mubarak.

Márcio Scalércio, historiador da PUC-Rio, ressalta que a Irmandade Muçulmana não é um partido político propriamente dito, e sim uma organização multifária, que promove uma série de ações religiosas e sociais. Embora sua estrutura seja semelhante ao grupo militante Hezbollah, do Líbano, a Irmandade Muçulmana alega ter abandonado há muitos anos o uso de meios violentos para atingir seus objetivos. Segundo Scalércio, trata-se de um grupo forte, que está apostando na queda de Hosni Mubarak para ter mais espaço em um futuro governo. Mas acredita que as ambições da Irmandade, na medida em que se mantenham dentro do jogo político, são legítimas. “Da mesma forma que, no Brasil, aceitamos que grupos católicos ou evangélicos tenham candidatos nas eleições, organizações muçulmanas têm direito a buscar representação política em países árabes”.

Claudia Musa Fay, da PUCRS, lembra que o Irã tinha um diferencial importante: a presença de uma forte liderança religiosa, “quase um messias”, na figura do aiatolá Khomeini. O Egito e a Tunísia, por sua vez, não têm líderes muçulmanos de destaque semelhante. Mas concorda que existe um temor, entre as grandes potências ocidentais, de que haja um eventual fortalecimento de regimes de dominação islâmica. “Bem ou mal, os Estados Unidos conseguem conversar com o regime de Mubarak. Um novo governo pode significar uma mudança, e os EUA não quer mudança, porque o equilíbrio que conquistaram (na região) é muito precário. Qualquer pecinha fora do lugar e o tabuleiro pode desmontar”.

RELAÇÃO COM ISRAEL PODE SER MAIS OSTIL
Samuel Feldberg, por sua vez, compara a situação do Oriente Médio com a dos países que foram libertados do jugo nazista, durante a Segunda Guerra Mundial. Esses países, em sua maioria, acabaram pendendo para o socialismo, já que os partidos comunistas eram os mais consolidados em cada um deles. No caso do Egito, com a Irmandade Muçulmana, o cientista da USP acha possível que algo semelhante aconteça. “A queda do atual regime deve gerar um vácuo de poder, no qual o partido pode ganhar ascendência”, admite Feldberg.

Para ele, o Egito tem importância estratégica para os grandes países ocidentais, em especial os EUA, não apenas por ser um interlocutor, mas também por ter relação amistosa com Israel. “Se um eventual novo governo egípcio se mostrar hostil a Israel, isso vai gerar uma crise estratégica”, argumenta Feldberg. O cientista político lembra que, nesse caso, todos os países conservadores do Oriente Médio estariam cercados por Irã e Egito, nações que estariam posicionadas contra Israel. “Seria uma catástrofe geopolítica”, adverte.

Renatho Costa, da Unipampa, concorda. E lembra que o Egito ficou “mal visto” pelos países vizinhos ao travar negociações com Israel. Isso motivou inclusive o assassinato do antecessor de Hosni Mubarak, Anwar Al Sadat, em 1981, por membros egípcios do grupo Jihad Islâmica. “Para os vizinhos, é uma relação espúria. Politicamente, o Egito teve benefícios, mas Mubarak nunca foi bem-vindo nos demais países da região. Se o novo regime egípcio acabar sendo de linha islâmica, essa relação com Israel deve sofrer um recrudescimento”, adverte.

PROTESTOS EM OUTROS PAÍSES ÁRABES
Além de Egito e Tunísia, outros países árabes começam a testemunhar demonstrações de revolta popular. O Iêmen, um dos países mais pobres do mundo árabe, teve protestos em suas principais cidades, Áden e Sanaa, exigindo a renúncia do presidente Ali Abdullah Saleh, no poder há quase 32 anos. Para tentar controlar a revolta, Saleh garantiu que “não haverá governo hereditário nem presidência vitalícia” no Iêmen, prometendo que não buscará reeleição. Além disso, prometeu ampliar o registro de novos eleitores e promover eleições diretas para os governos provincianos e locais.

A Jordânia também vivencia manifestações contra o atual regime, liderado por Samir Rifai, pedindo medidas imediatas para controlar a inflação e a pobreza. A Argélia, que vive em estado de emergência desde 1992, teve protestos simultâneos em várias das maiores cidades do país, exigindo o controle de preços, especialmente de alimentos. Sinalizando a preocupação crescente dos regimes árabes, o governante da Líbia, Muamar Khadafi, declarou apoio ao tunisiano Ben Ali e disse que, agora, “a Tunísia vive com medo”. No poder há mais de 40 anos, Khadafi é o líder árabe que está há mais tempo à frente de seu país. Embora a repressão seja dura na Líbia, há relatos de protestos na cidade de al-Bayda.

Segundo alguns dos analistas que conversaram com o Sul21, o temor dos principais governos ocidentais — em especial os EUA — é de perder importantes interlocutores em uma área fundamental para a economia mundial. Isso justificaria não apenas os muitos anos de tolerância com governantes autocráticos, mas também o posicionamento pouco firme adotado, até o momento, quanto à possível abertura desses regimes. Se os protestos tomarem conta de mais países árabes, o precário equilíbrio da região pode desmoronar, causando mudanças dramáticas no panorama político-econômico mundial.

SITUAÇÃO NA REGIÃO É INCERTA
“Para os EUA, não dá nem para imaginar perder o diálogo com a Arábia Saudita, por exemplo”, diz a historiadora da PUCRS. Caso as revoltas populares cheguem ao principal produtor de petróleo do Oriente Médio, uma nova recessão econômica mundial pode ser inevitável. “Nesse sentido, o mundo já tem crises demais. Nem mesmo os países árabes querem isso”, afirma Claudia Musa Fay. Para ela, a tendência é que os governos locais adotem uma postura mais conciliadora, promovendo algumas aberturas políticas, para tentar evitar que os protestos, que já se verificam em alguns países árabes, tomem uma dimensão maior.

“Até o último domingo (30), os EUA pareciam acreditar que Mubarak cairia. Já estavam, de certa forma, preparando a transição”, defende Márcio Scalércio. Agora, segundo o professor da PUC-Rio, a situação é bem mais incerta. “O Egito é uma peça muito importante e bem localizada no tabuleiro da região. Os mesmos países que toleraram regimes pavorosos como os do Egito e da Tunísia, agora temem um governo mais autônomo (no Egito), porque a repercussão regional será muito grande”.

Ainda segundo Scalércio, o movimento simbolizado pelos recentes protestos “já está acontecendo, é uma realidade”. Mas a multiplicidade existente no Oriente Médio dificulta previsões mais concretas sobre novos desdobramentos. “Países produtores de petróleo, como a Arábia Saudita, podem investir em políticas sociais que abafam a insatisfação popular. Acho que a possibilidade de uma grande revolta popular na Arábia Saudita é mais remota”, diz o professor. “Em países como Marrocos, Líbia e Argélia, é algo bem mais possível”.

“Falar em ‘onda’ é um pouco prematuro”, opina Renatho Costa. De qualquer modo, o professor da Unipampa acredita que os governos despóticos terão que se reestruturar para tentar algum tipo de permanência no poder. “A Tunísia, por exemplo, propôs eleições livres em 4 anos! As pessoas não querem isso, a população exige mudanças imediatas. Os governos (dos países árabes) terão que ceder, abraçando projetos sociais e econômicos, de repente até promovendo alguma espécie de abertura política. Talvez, assim, consigam evitar que esse processo se expanda”.

Disponível em: www.sul21.com.br