terça-feira, 6 de dezembro de 2011

PARA ESPECIALISTAS, ATAQUES TENTAM ENFRAQUECER GOVERNO AFEGÃO

06/12/2011 - 17h00 | O Globo

Sem autoria reivindicada, atentados têm provável motivação sectária

RIO - Os ataques durante a festa xiita da Ashura, no Afeganistão, que já deixaram pelo menos 63 mortos, mostram um país que continua dividido e que não está estabilizado, mesmo com a decisão americana de retirar suas tropas do território afegão. A ação pode ter como objetivo enfraquecer o governo do presidente Hamid Karzai, acreditam especialistas. Eles também veem uma separação sectária como motivação dos atentados. Nenhum grupo reivindicou a autoria dos ataques até agora.

- O Afeganistão está em guerra há 30 anos e coisas terríveis aconteceram, mas uma das coisas que os afegãos têm sido poupados é o que parece ter sido esse tipo de ataque, muito sectário - disse Kate Clark, da Rede de Analistas do Afeganistão à agência de notícias Reuters.

O país tem um histórico de tensão e violência entre sunitas e a maioria xiita, mas desde a queda do Talibã, em 2001, viu cair o número de ataques em grande escala com motivação religiosa, ações que ainda perturbam o vizinho Paquistão.

Francisco Carlos Teixeira da Silva, professor de História contemporânea da UFRJ, também vê no sectarismo a provável motivação das ações desta terça-feira:

- Os ataques de hoje (terça-feira) foram feitos para manter a divisão no país e provocar uma guerra civil. Os seguidores do salafismo e do wahhabismo são os sunitas mais radicais e fundamentalistas e podem estar envolvidos. Existe hoje um grande engodo de que o Afeganistão está pacificado. Os Estados Unidos estão maquiando a situação no país para se retirar com honra, para fingir que ganharam a guerra. Se o objetivo era matar o Bin Laden, podem até ter ganhado. Mas se o objetivo era acabar com a rede de terroristas que existe lá, os EUA não ganharam essa guerra.

Apesar de o Ministério do Interior do Afeganistão culpar o Talibã e "terroristas" pelos ataques, o Talibã condenou as explosões, atribuídas a um inimigo não identificado.

- Fomos informados com muita tristeza de que houve explosões em Cabul e Mazar-i-Sharif, onde pessoas foram mortas pela atividade desumana e anti-islâmica do inimigo - escreveu o porta-voz do grupo, Zabihullah Mujahid, em uma nota no site do Talibã.

Mesmo com a negação, a analista Kate Clark não descarta o envolvimento Talibã:

- Ainda não sabemos quem plantou a bomba e é perigoso tirar conclusões precipitadas, mas se foi o Talibã, isso é algo realmente sério, perigoso e muito preocupante.

O local do ataque em Cabul instantes após a explosão em frente a um santuário - Reuters

Ataque surpreendeu xiitas durante importante celebração
Já Kamran Bokhari, da empresa de inteligência Stratfor, dos Estados Unidos, enxerga uma estratégia da al-Qaeda para desestabilizar as medidas de pacificação do governo.


- É muito raro, se não o primeiro (ataque) deste tipo, e me parece ser o trabalho de elementos aliados da al-Qaeda, que gostariam de interromper qualquer processo de reconciliação entre o Talibã e o governo - afirmou Bokhari à Reuters.

Para Renato José da Costa, professor de Relações Internacionais da Unipampa, no Rio Grande do Sul, muitos aspectos da ação ainda não estão claros e é difícil apontar uma provável causa. Entretanto, ele também enxerga o enfraquecimento do governo de Hamid Karzai como possível motivação para os ataques.

- Há muitos anos não acontecia esse tipo de ação sectária. Não exergo uma organização que pudesse ter planejado os atentados. Pode ser uma dissidência dentro de sunitas do Afeganistão, o que seria até algo esperado - afirma. - Mas essa ação teria que ter sido fomentada por alguém. A intenção parece ter sido desestabilizar o presidente Karzai ou levar o Irã a se manifestar a favor dos xiitas.

 
Agora, afirma, tão importante quanto descobrir a motivação dos atentados é ser preparar para suas consequências, que tendem a reacender a luta sectária no país.

- O desdobramento pode ser preocupante, pois os xiitas vão se sentir ofendidos e agredidos pelo ataque em uma de suas datas mais importantes. Tenho dúvidas se o governo vai conseguir achar o culpado - conclui Costa.

sábado, 15 de outubro de 2011

ISRAEL E HAMAS FAZEM ACORDO PARA LIBERTAÇÃO DE PRISIONEIROS


Sábado, 15 de outubro de 2011.

O Programa Fato em Foco, apresentado pelo jornalista Roberto Nonato, recebe o Professor de Relações INternacionais da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), RENATHO COSTA, e o Coordenador do Curso de Relações Internacionais da FMU, MANUEL NABAIS DA FURRIELA, para debaterem sobre a recente troca de prisioneiros entre o Estado de Israel e o Hamas. Também, sobre a situação política da Síria.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

NÚMERO DE MORTOS EM REPRESSÃO A PROTESTOS NA SÍRIA CHEGA A 2.900

Rádio CBN
Programa Jornal da CBN Segunda Edição
Quinta-feira, 06 de outubro de 2011

Apresentação Roberto Nonato
Entrevista com Renatho Costa,
professor de Relações Internacionais da
Unipampa (Universidade Federal do Pampa)












Ou pelo link: http://cbn.globoradio.globo.com/programas/jornal-da-cbn-2-edicao/2011/10/06/NUMERO-DE-MORTOS-EM-REPRESSAO-A-PROTESTOS-NA-SIRIA-CHEGA-A-2900.htm

terça-feira, 4 de outubro de 2011

ENTREVISTA - REVISTA CULTURA ISLÂMICA



1 - Apresente-se, por favor:
Meu nome é Renatho Costa, nasci em São Paulo, capital. Logo que terminei o Ensino Médio iniciei o curso superior de Cinema, mas acabei não levando adiante. Contudo, como sempre gostei muito de escrever, passei a escrever peças teatrais. Paralelamente a isso, iniciei o curso superior de Relações Internacionais. Foi durante a graduação que comecei a me interessar pelo Oriente Médio e percebi que tínhamos poucos especialistas nessa área, no Brasil. Assim, iniciei meus estudos e percebi que para entender melhor as questões políticas que envolviam o Oriente Médio teria de conhecer os muçulmanos, sua história e o Islã. Dessa maneira, esse tema tornou-se objeto de minha monografia e, na sequência, iniciei o mestrado em História Social (USP) no intuito de entender melhor o sistema político libanês e as influências do partido político Hezbollah. Quando terminei o mestrado percebi que havia muitas dúvidas sobre o Islã e que esse tema poderia ser estudado no doutorado. Foi assim que surgiu a possibilidade de fazer um projeto para estudar o modelo do wilayat al-faqih. Assim, para entender melhor esse modelo, tive de voltar-me para o estudo das origens do xiismo e da própria concepção de liderança.

Mesquita de Jamkaran, Qom, Irã.

2 - Qual a sua profissão?
Sou professor. Enquanto estava cursando o mestrado ministrava palestras sobre a temática que envolve o Oriente Médio, após ter iniciado o doutorado fui convidado a ministrar uma disciplina no curso de Pós-Graduação em Política e Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), uma das mais tradicionais e antigas faculdades de São Paulo. Paralelamente a isso também trabalhei em outras faculdades em São Paulo e região. A partir de 2010 passei no concurso público para Professor Assistente na Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), para trabalhar no curso de Relações Internacionais. E é onde trabalho hoje, no campus localizado na cidade de Santana do Livramento, Rio Grande do Sul.

3 - Que pontos interessantes o senhor, como cristão, viu na religião islâmica?
Entendo que tanto a religião islâmica como a cristã possuem concepções semelhantes acerca do respeito à vida, da preservação da sociedade, do respeito ao próximo, etc. Enfim, o Islã, em sua concepção mais pura e verdadeira não se afasta em nada dos princípios que vivi e vivo no Brasil. Talvez a maior diferença entre os cristãos e os muçulmanos seja que, muitas vezes, os seguidores do Islã vivenciam com mais efervescência sua religiosidade, ou seja, parece-me que para os muçulmanos a religião está integrada ao dia-a-dia, o que para os cristãos, pelo menos a grande maioria, não ocorre. Todos os dias, com a necessidade de fazer as orações, os muçulmanos buscam a reflexão acerca de sua relação com o divino. Para os católicos, principalmente, esse processo é um tanto diferenciado. Não quero fazer nenhum juízo de valor, até porque entendo que as pessoas devem buscar nas religiões as respostas para suas angústias pessoais, mas ressaltaria essa dedicação tão intensa do muçulmano à sua religião como um aspecto que me chama atenção.

4 - O que levou o senhor a se interessar em estudar esta região, exatamente onde a religião islâmica predomina?
Como disse anteriormente, ao optar por aprofundar meus estudos acerca do xiismo, e mais efetivamente, acerca do wilayat al-faqih, tinha certeza de que o melhor local para entender essa concepção de liderança seria voltar meu foco para onde foi implantado e é estudado com mais profundidade. Inicialmente, enquanto fazia o estudo bibliográfico acerca do xiismo, cheguei a trabalhar em um projeto para estudar as escolas de Najaf e Qom de maneira comparativa, mas percebi que a importância de Qom tornou-se inquestionável após a Revolução Islâmica e isso fez com que eu optasse por focar minha pesquisa no Irã. Como a intenção era entender a estrutura do wilayat al-faqih e seu desdobramento político para o restante da população islâmica xiita do mundo, entendi que precisaria entrevistar as principais lideranças religiosas atuais para ouvir suas impressões e sanar algumas dúvidas que surgiram em meu estudo bibliográfico. Assim, para chegar a esse momento de fazer as entrevistas com aiatolás iranianos, tive de estudar a história da Pérsia, de sua islamização e, finalmente, da Revolução Islâmica, no final do século 20. Posso dizer que, para contemplar esses objetivos acadêmicos, o Irã apresentou-se como uma escolha natural. E, dessa maneira, ter a possibilidade de entender um pouco mais sobre a religião xiita e o povo iraniano, que a abraçou com tanto afinco, tornou-se um grande prazer... e uma obrigação.

5 - Quais dúvidas mais frequentes feitas por seus alunos com relação ao islã ou sobre as regiões onde ele predomina?
Primeiramente é importante salientar que o Islã não é uma religião predominante no Brasil, existem, relativamente, bem poucos seguidores dessa religião e eles estão concentrados em algumas regiões do país. Assim, as pessoas, de modo geral, não estão acostumadas a conviverem com muçulmanos. Temos poucas mesquitas no país e, escolas islâmicas, ainda menos. Por conseguinte, o primeiro problema que surge diz respeito ao fato de que a grande maioria da população, e mesmo os alunos, têm dificuldade para entender a diferença entre árabes, persas e turcos. Não obstante a questão étnica, as pessoas ainda têm muita dificuldade pra entender a diferença entre xiitas e sunitas. O Islã, de modo geral, é algo estranho (justamente por não ser entendido)!
A maior dificuldade, agora referindo-me mais diretamente ao estudo do Islã e da região do Oriente Médio, por parte dos alunos, ressaltaria que é a pouca informação que eles tiveram nas etapas iniciais da educação formal. Assim, as dúvidas ocorrem desde a razão pela qual os muçulmanos têm de fazer as orações, até o significado do Ramadã. Além de questionamentos sobre o “casamento provisório”, muitas vezes visto como uma excentricidade para os padrões ocidentais. Evidentemente que, no que tange à região do Oriente Médio, as questões relacionadas aos atritos entre palestinos e israelenses ganham grande destaque. A grande maioria não entende a razão dos atritos e o porquê de não haver uma ação internacional efetiva de forças externas para cessar a “guerra em curso”. Mas é importante registrar que gradualmente o Oriente Médio vai se tornando objeto de atenção e mais estudos por parte dos acadêmicos brasileiros, assim, é provável que esses temas logo serão absorvidos pelas pessoas e o Islã se torne mais acessível a todos.

6 - Porque a religião islâmica seria tão visada atualmente?
Existem duas possibilidades de análise para essa questão, quais sejam, primeiramente porque alguns atores (países) no ocidente percebem as diferenças entre o Islã e o cristianismo como um risco. Assim, seguindo a teoria do cientista político estadunidense, Samuel Huntington, haveria um choque de civilizações em curso e, dessa maneira, os ocidentais teriam de se preparar para esse conflito. Por outro lado, uma segunda possibilidade diz respeito, exatamente, à força que algumas organizações islamistas (fundamentalistas islâmicas) alcançaram na mídia. Essas organizações sempre fizeram questão de frisar que estavam lutando contra o Ocidente “em nome de Deus”, e mais, alegavam que a legitimidade para essa luta estava ligada a ditos corânicos. Assim, de certa maneira, o Islã tornou-se um grande vilão do mundo contemporâneo. Tanto uma como outra dessas visões estão equivocadas, contudo, têm sido difundidas com muita frequência e essa pode ser a razão pela qual os muçulmanos são tão visados nos dias de hoje.

7 - Segundo seus estudos, pode-se ligar a religião islâmica com o terrorismo?
Acredito que qualquer tentativa de ligação entre a religião islâmica e o terrorismo seja um grande equívoco. Qualquer pessoa que tinha acesso ao Corão poderá perceber que os princípios defendidos pelos islâmicos são os mesmos dos cristãos e judeus. Por outro lado, é inegável que algumas organizações terroristas fizeram questão de usar o nome do Islã para legitimar sua luta. E, nesse sentido, entendo que também tenha havido uma aproximação entre os dois conceitos. Também, lideranças religiosas fizeram questão de interpretar fontes islâmicas no sentido de aproximarem a religião do terrorismo, contudo, em meus estudos consigo apontar onde estão essas diferenças. Ainda, algumas organizações se intitulam islâmicas, mas acabam se afastando tanto dos princípios religiosos que possuem maior caráter político que religioso.
Temos, ainda, que ressaltar que o terrorismo não foi inventado pelas organizações islâmicas, esse tipo de ação sempre existiu em outras localidades, talvez o diferencial no caso dos grupos, dito islâmicos, seja a utilização de homens-bomba, mas mesmo em uma guerra irregular a autorização para o uso dessa tática, por partes de lideranças islâmicas variadas, é muito questionável. Dessa maneira, particularmente, em meus estudos, consigo traçar diferenças entre Terrorismo e Islã, mas há muita produção que diverge de minhas conclusões.

8 -  Como foi sua viagem ao Irã?
Primeiramente é importante salientar que ela foi fundamental para aproximar-me, o máximo possível, dos objetivos propostos em minha tese. Quando estudei o Líbano, em meu mestrado, não tive a oportunidade de visitá-lo e entendi que essa foi uma deficiência em minha pesquisa. Agora, por mais que eu tenha lido sobre o Irã, Qom, o xiismo, etc., quando desembarquei em Teerã muitos dos conceitos que tinha anteriormente foram desmontados. Ter a oportunidade de conviver com outros colegas da Al-Mustafa University, com a população iraniana e ainda por cima ter entrevistado algumas autoridades religiosas (aiatolás), deu-me a possibilidade de ver um Irã mais humano. Evidentemente que existem problemas sociais, políticos, econômicos, mas essa é uma questão que pode ser discutida e tive a oportunidade de conversar com todos a esse respeito. Diferentemente do que imaginava, não existem tabus que acerca do que é possível ser discutido, apenas pontos de vista divergentes. O principal nessa viagem foi perceber que as diferenças culturais podem aproximar os povos, mas é necessário que se rompam algumas barreiras para tal.

9 - Que pensamentos o senhor tinha deste país e quais têm agora?
Na verdade, devido ao fato de estar estudando o Irã, e sua história, por aproximadamente cinco anos, ininterruptos, sentia que conhecia bem o país e sua cultura, no entanto, em muitos aspectos eu estava errado. Somente vivenciando o dia a dia do país que é possível compreendê-lo melhor. Somente andando de ônibus, metrô, táxi, etc., que é possível ouvir o povo falar de seus problemas e suas angústias pessoais. Assim, entendo que quando cheguei ao Irã tinha em mente que iria encontrar um país fechado, onde a repressão se assemelhava aos tempos em que o Brasil vivenciou a Ditadura Militar, no entanto, encontrei algo diferente. Existem restrições, é claro. Talvez essas restrições sejam estranhas para algumas pessoas fora da cultura islâmica xiita, mas na vida cotidiana iraniana nem sempre soam como restrições. E esse é o ponto que merece atenção. Costumamos analisar os outros a partir de nossos referenciais e nos esquecemos que existem histórias distintas. Assim, o que posso dizer hoje sobre o Irã é que é um país em constante transformação, mas que pauta essas mudanças em princípios religiosos.  Nesse sentido, segue uma trajetória distinta do Ocidente, mas não é possível afirmar, sem o risco de cometer um grande equívoco, que um modelo seja melhor do que o outro. São diferentes, e, em alguns pontos poderiam ser complementares, mas isso demandaria um processo de aproximação que não me parece tão simples no momento.

Jardins do Palácio em Isfahan, Irã.

10 - Conte-nos de alguns pontos que foram interessantes nesta viagem.
Um aspecto que cabe ser ressaltado é que não há apenas “um Irã dentro do Irã”. Muito comumente a mídia, e mesmo alguns segmentos acadêmicos, tendem a analisar o Irã como um bloco monolítico. Mas durante o período que estive no país pude conhecer faces distintas de um mesmo povo. Estar em Teerã é o mesmo que viver em São Paulo. Inclusive o metrô lotado da estação da Sé é o mesmo. Mas em Teerã temos um vagão somente para mulheres... e as mulheres de Teerã usam mais o hijab que o chador. Sem dúvida Teerã apresenta uma beleza sem igual. A modernidade e a tradição estão muito próximas. E ainda é possível ser brindado com a visão dos belos cumes das montanhas cobertos pela neve. Em contrapartida, Qom é uma cidade que se vive religião. Uma cidade antiga, mas que para que sabe procurar, encontrará aspectos de modernidade como shoppings centers e fast food. Qom é uma cidade “bege”. Uma arquitetura baixa e que quando se vê do alto das montanhas se mistura com a cor do deserto... mas é uma cidade importante para a manutenção da religião xiita. Ali encontram-se ótimos centros religiosos que recebem alunos do mundo inteiro. E o que dizer de isfahan???!!! Uma cidade que qualquer cidadão do mundo se sente em casa. Beleza por todos os cantos e verde, muito verde. Lindos parques, praças... cada mínimo espaço é bem tratado como único. Pessoas muito alegres. Esses são apenas alguns aspectos do Irã que conheci, mas caberiam muitas mais observações. Sobre o misticismo, a fé, a alegria, o “taruf”... Um país que merece livros e mais livros para expor sua diversidade.

11 - Como o senhor pode definir a religião islâmica atualmente depois desta viagem, mudou algum conceito?
Acredito que não tenha havido mudanças conceituais, mas em contrapartida, pude conversar com as pessoas que mantém o xiismo vivo e isso me auxiliou muito. Ler sobre o xiismo por vários anos me deu subsídio para poder sentar-me com alguns aiatolás e ouvir deles se o que tinha lido era, de fato, real ou interpretação equivocada da religião xiita. Mas mesmo as divergências que encontrei nas respostas das pessoas que pude entrevistar, não foram suficientes para que eu afirme que houve mudanças conceituais. A verdade é que agora tenho uma “versão viva do xiismo” para analisar e não apenas uma “versão bibliográfica”. Esse é um aspecto extremamente positivo.

12 - Um fato que marcou em seu pensamento sobre o islã e o Irã?
Ter tido a oportunidade de assistir as orações dentro de um Santuário como o de Fátima Mazuma é uma experiência incrível. Ver como as pessoas expõem sua fé num santuário como esse, posso dizer que foi impressionante. Por isso que a impressão que tenho é de que o muçulmano vivencia sua fé todos os momentos do dia. Agora, no que tange ao Irã, duas imagens são muito fortes para mim, quais seja, a presença de uma quantidade enorme de estudantes estrangeiros que vai à Qom para estudar religião (e faz como que a cidade se transforme numa Babel, tal a quantidade de linguais que são faladas por eles) e a gentileza do iraniano. Um povo com certas peculiaridades que somente vivendo algum tempo no país torna-se possível compreendê-las. Mas um povo que ama o Brasil. Basta dizer a palavra mágica que “você é do Brasil” e todas as portas e gentilezas aumentam. Nunca imaginei que um povo tão distante gostasse tanto do Brasil. Essa forma carinhosa de tratar os brasileiros, levarei na lembrança, pra sempre!

13 - Uma palavra final para os leitores.
Gostaria muito de agradecer pela oportunidade que tive de ir ao Irã para concluir minhas pesquisas. Nesse sentido, entendo que seja fundamental destacar o serviço que a fundação dirigida pelo brasileiro Rodrigo Jalloul desenvolve no Irã. Por ser o único brasileiro na Universidade Al-Mustafa que estuda religião, acaba sendo um contato valioso para os estudantes e pesquisadores que pretendam ir ao país. A Friends of Islam Foundation – International foi a responsável por todo o processo que me levou a desenvolver a fase final de minha pesquisa no Irã. Através dela fui recebido pela Al-Mustafa International University e tive toda a estrutura disponível para concluir meu trabalho. Esse é um agradecimento que tenho de fazer porque encontrei profissionais preocupados em atender minhas necessidades acadêmicas, quaisquer que fossem. Muito obrigado.

domingo, 11 de setembro de 2011

DEZ ANOS DEPOIS, O MUNDO SEGUE BRINCANDO DE 11 DE SETEMBRO


Mundo, 11 de setembro de 2011


Renatho Costa

Certa vez, fui buscar minha filha, então com cinco anos, na escola e a vi brincando com suas amigas de algo que não fazia parte das brincadeiras de infância que conhecia. Fiquei tomado pela curiosidade e fui perguntar-lhe do que se tratava. Quando a indaguei, disse-me que estava brincando de “11 de setembro”. Duas meninas ficavam paradas, outra vinha correndo e chocava-se com elas… Na sequência, iam todas para o chão, levantando-se em seguida para novo round. Por meio dessa brincadeira, minha filha traduziu de modo tão objetivo e simplificado o que fora o 11 de setembro que logo percebi a magnitude que o evento iria alcançar, pois esse potencial estava fortemente relacionado à facilidade narrativa e interpretativa dos fatos.
Dez anos se passaram desde o atentado e o 11/9 continua mais vivo do que nunca. De certo modo, sua repercussão através da mídia fez com que os eventos se perpetuassem. Seja onde for, a grande maioria das pessoas sabe o que ocorreu nos EUA naquele fatídico dia. Podem até divergir quanto aos responsáveis pelos atentados, ou mesmo a intenção dos perpetradores da ação, mas sabem que duas torres deixaram de existir naquele dia. A imagem das torres ruindo “ao vivo” é um elemento muito forte e marcante, por isso mesmo dotado de grande representatividade. Em certos aspectos, a difusão foi tão intensa que até banalizou-se ou serviu para atender aos interesses de determinados grupos políticos no poder – como os neocons que encontravam-se à frente do governo estadunidense em 2001. No entanto, depois de tantos anos, uma questão se impõe: quem foi ao chão com a queda das duas torres nova-iorquinas?

Uma pergunta no ar

Por mais que os EUA tendam a difundir a imagem das torres ruindo para fortalecer sua legitimidade de ação, não é possível entender o 11 setembro olhando apenas para Manhattan, tampouco ouvindo depoimentos dos cidadãos norte-americanos que tiveram parentes vitimados no WTC. Temos, da mesma forma, de ampliar nosso campo visual e focar a atenção no Oriente Médio. Temos de analisar o reflexo das ações programadas pelo ex-presidente George W. Bush na busca de sua vingança, a qual, em muitos aspectos, lembra a ação de Golda Meir contra os agentes que praticaram o atentando contra a delegação israelense  durante as olimpíadas de Munique, em 1972.

Meir precisava mostrar ao mundo, e a sua própria população, que Israel não se fragilizaria diante de ato tão violento, e mais, que o país teria condições de vingar-se dos perpetradores do sequestro praticado contra seus nacionais. De modo análogo, mas em dimensão mundial, como requer a ação de uma potência, Bush viu-se diante do mesmo dilema: partir para o ataque sem ter certeza da dimensão de seus atos, ou esperar e correr o risco de perder a confiança de seus nacionais e dos demais países que o percebem como potência hegemônica?

Bush e Meir partiram para o ataque. A diferença é que Meir tinha um inimigo claro e objetivo, o que fez com que suas ações contra os membros da organização palestina Setembro Negro fossem mais efetivas. Em contrapartida, Bush necessitou “criar” um inimigo para implementar sua ação. Meir estava envolta pelo sentimento de vingança e agiu a partir da simples lógica do revide, fato esse que veio a agravar o relacionamento com os palestinos. Bush construiu uma Doutrina para legitimar seus atos e, como consequência inicial, envolveu praticamente toda a nação muçulmana no rol dos culpados pelo 11 de setembro.

Não se pode dizer que a dificuldade de negociação entre Israel e palestinos esteja ligada exclusivamente à ação de Golda Meir contra o Setembro Negro, até porque tivemos alguns processos de paz que se iniciaram posteriormente ao governo da ex-primeira ministra e que naufragaram por outras razões. Entretanto, é inegável que a estratégia implementada por Meir em nada contribuiu para resolver a “Questão Palestina” e configurou-se num simples ato de revide, tendo em vista que os palestinos continuaram a programar ações contra Israel. A opressão que viviam na Cisjordânia e Faixa de Gaza configurava-se em elemento suficientemente capaz de motivá-los à ação. Assim, a morte dos membros do Setembro Negro não inibiu a ação palestina.

Bush, por sua vez, direcionou a vingança para o longínquo Afeganistão. Para tanto, pautou sua ação pelo princípio da “Guerra Preventiva” e conseguiu o aval da ONU para legitimar seu ato de revide contra a al-Qaeda (elencada a “inimigo nº 1” do mundo). Com isso, passou a existir um inimigo claro contra quem lutar, um território onde ele se refugiava e os “apoiadores do terrorismo” (talibã) que davam suporte à organização islamista (ou fundamentalista islâmica, como é mais comumente classificada) responsabilizada pelo ataque. Essa construção estava detalhava nas Resoluções do Conselho de Segurança da ONU. Com isso, Bush teria a tranquilidade suficiente para agir, ainda que sem a certeza de vitória.

Nesses dez anos de “guerra ao terror” ainda foi possível implementar mais uma ação contra o Iraque em 2003. Novamente, um estado “patrocinador do terrorismo” foi vítima de intervenção. A Doutrina Bush alcançava seu ápice. Nem mesmo as falsas alegações que subsidiaram a invasão ao Iraque (que o país possuiria armas de destruição em massa) foram suficientes para abalar a atuação dos EUA no Oriente Médio. No entanto, apesar da ação predadora dos EUA junto aos países muçulmanos, será que é possível entendê-la como uma vitória? De certo modo, o enfraquecimento político dos Republicanos demonstrou que os EUA poderiam estar equivocados na estratégia do presidente Bush e a eleição de Barack Obama poderia apontar para uma nova etapa para a reconstrução dos equívocos de seu antecessor.

Dez anos depois, enquanto se ergue uma nova torre em Manhattan para demonstrar que os EUA não sucumbiram frente à al-Qaeda, as transformações políticas no Oriente Médio e norte da África demonstram que os EUA se equivocaram em sua política externa.

De fato, Obama assumiu a presidência norte-americana como uma grande promessa e logo tentou corrigir os equívocos anteriores. O Oriente Médio não deixou de ser a preocupação da nova administração, contudo, a perspectiva era outra. O próprio discurso de Obama na cidade do Cairo (intitulado “A New Beginning”) apontou para um novo relacionamento entre Ocidente e o “mundo muçulmano”. Porém, nem tudo que foi exposto no Cairo se tornou realidade e, ainda que a promessa de retirar as tropas do Iraque e Afeganistão venha sendo cumprida gradualmente, a intervenção política na região não dá sinais de que chegará ao fim.

A nova velha história

A reestruturação do Iraque e Afeganistão a partir de pressupostos “democráticos” não é suficiente para determinar sua independência. Os governos eleitos dependem política e economicamente do Ocidente e o nível de corrupção nesses “governos eleitos” não apresenta grandes expectativas para a população. Em muitos momentos, durante a intervenção no Afeganistão, claramente a população local deixou de acreditar no governo eleito e passou a apoiar os grupos insurgentes. O modelo de ação político-militar proposta para o Afeganistão não conseguiu surtir os efeitos desejados. Nem mesmo a morte de Bin Laden, em maio desse ano, guarda grande representatividade para a ação ocidental no Afeganistão, pois não se configura numa vitória. Hoje, não consegue nem mesmo traduzir o efeito de vingança proposto por Bush.

Significativamente, o antiamericanismo continua sendo um sentimento muito forte junto às comunidades muçulmanas do mundo. Apesar de Obama tentar reconstruir a imagem dos EUA no Oriente Médio, o efeito da presença de tropas em países islâmicos não coaduna com sua proposta. Assim, gradualmente os movimentos islamistas ganham espaço para surgirem como resposta à situação atual na região.

Agregada a essa insatisfação, a recessão econômica mundial trouxe uma pressão extra aos governantes muçulmanos e o resultado configurou-se na “Primavera Árabe”. Dessa vez, os EUA assistiram reticentes aos primeiros movimentos desse levante, sem tomarem posição. Entretanto, tal tem sido a magnitude do evento que não houve como furtar-se a um posicionamento. Nesse caso, o engajamento à queda dos antigos ditadores acabou sendo obrigatório ao presidente Obama e aos demais países do Ocidente.

Enfim, temos dez anos de transformações intensas no Oriente Médio e que ainda não cessaram. Partimos de uma política extremamente agressiva do governo Bush para outra mais conciliadora de Obama. Tivemos uma perseguição a Bin Laden, como no velho estilo western, para sanar a sede de vingança de George W. Bush, que culminou com uma ação questionável no Paquistão, onde o líder da al-Qaeda foi assassinado por tropas especiais dos EUA. De Washington, Obama assistia tudo “ao vivo”.

Caiu Bin Laden e o egípcio Ayman al-Zawahiri assumiu o a liderança da al-Qaeda; a instabilidade política do Afeganistão e Iraque perduram; os países que iniciaram seus levantes contra governos ditatoriais no norte da África e Oriente Médio não apresentam simpatia pelos EUA e, numa perspectiva mais pragmática, até aceitam o apoio de forças estrangeiras para fazerem seus levantes (como os líbios tiveram da OTAN), mas não querem abrir mão de constituírem um governo autônomo.

Nesse sentido, o risco aumenta para os EUA, pois a perspectiva islamista pode apresentar-se como uma real força para a reestruturação do Estado nesses países. Egito e Tunísia ainda vivenciam o processo de transição que supostamente os levariam à democracia, contudo, as dificuldades têm sido um obstáculo de difícil transposição. Outros estados do Oriente Médio ainda estão em processo de ebulição, como Síria e Bahrein, e os EUA podem significar o elemento decisivo para que haja a mudança ou a manutenção dos regimes em questão. Mas outra intervenção norte-americana poderá trazer efeitos ainda mais graves para a economia nacional, tendo em vista que o custo para a manutenção das tropas no Iraque e Afeganistão já é objeto de intensa crítica dentro dos EUA.

Epílogo?

No fim das contas, como responder a questão proposta nessa análise, ou seja, quem de fato “caiu” com as torres gêmeas. Na verdade, o que é possível depreender desse questionamento é que os EUA conseguiram construir um forte elemento propagandístico para sustentar um modelo de política externa que os interessava. Os atentados de 11 de setembro, independentemente da fragilidade das teorias conspiratórias, serviram para que os EUA recrudescessem o modelo de segurança internacional e conseguissem legitimidade, inclusive, para violar o conceito fundamental que constitui o sistema internacional, qual seja, de soberania do estado.

O 11 de setembro não foi mais violento, por exemplo, que o bombardeio à Hiroshima e Nagasaki (no final da Segunda Guerra Mundial), tampouco suas consequência imediatas e posteriores (mortes por radiação que continuaram por gerações). Mas, ao contrário do que ocorreu em 1945, em 2001 a transmissão “ao vivo” pelas redes de televisão do mundo, agregado à assimilação do conceito de “choque de civilizações” cunhado por Huntington, instrumentalizou Bush a construir sua vingança.

Dez anos depois, enquanto se ergue uma nova torre em Manhattan para demonstrar que os EUA não sucumbiram frente à al-Qaeda, as transformações políticas no Oriente Médio e norte da África demonstram que os EUA se equivocaram em sua política externa. A intervenção em países muçulmanos e o apoio aos antigos ditadores não foi suficiente para manter a região sob seu domínio. Hoje, a troca de lado por parte dos governantes norte-americanos somente os desmoraliza frente à população muçulmana local.

Assim, do mesmo modo que não podemos afirmar que a al-Qaeda ruiu com a morte de Bin Laden, tampouco que tenha obtido ganhos substanciais com os atentados de 11 de setembro, também não é possível afirmar que os EUA tenham sido felizes com as intervenções no mundo muçulmano. Se, conforme alguns analistas internacionais apontam, a ação estadunidense fora pautada por interesses econômicos, a recessão mundial não conspirou a seu favor, pois as crises da primeira década desse século abalaram substancialmente a economia dos EUA.

Desse modo, entre mortos e feridos, o 11 de setembro representa a vulnerabilidade dos EUA, mas também sua capacidade hollywoodiana de construir uma propaganda ao seu favor. Se não temos um knockout após o 11 de setembro, também não temos vencedores. Cabe às partes envolvidas, então, continuarem narrando suas histórias, de forma a encontrar seguidores e admiradores. A nós, resta ficarmos atentos às brincadeiras infantis, para verificarmos se elas nos trazem novos elementos para uma melhor compreensão dos eventos do sistema internacional.

Disponível em: http://sul21.com.br/jornal/2011/09/dez-anos-depois-o-mundo-segue-brincando-de-11-de-setembro/

quarta-feira, 20 de julho de 2011

ENTREVISTA À RADIO ESTADÃO/ESPN

PROGRAMA ALIÁS

Apresentação de Cíntia Gomes

São Paulo, 25 de junho de 2011.

"Aliás" repercute decisão de Obama de retirar tropas do Afeganistão

Segundo o professor de Relações Internacionais Renatho Costa (Unipampa), o país do Oriente Médio não mudou substancialmente. Postura do presidente dos EUA tem mais viés político eleitoral do que estratégico.




Confira a íntegra do programa e a entrevista através do link: http://radio.estadao.com.br/audios/audio.php?idGuidSelect=A2A02BC2C5934BD38DC3698C03A1EC21

(a entrevista sobre o Afeganistão começa aos 27:02 minutos)