domingo, 8 de setembro de 2013


Brasília, 30 de agosto de 2013

Entrevista ao programa GIRO PELO MUNDO da Rádio Justiça, ancorado pelo jornalista Chico Gomes, sobre a situação atual do Iraque.
 


Fonte: http://www.radiojustica.jus.br/radiojustica/programacao.action

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

UM IRÃ DIVIDIDO COMEMORA 34 ANOS DE REVOLUÇÃO ISLÂMICA


Primeira página

Radio França Internacional - Fato em Foco
11 de fevereiro de 2013

Patricia Moribe


O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad.O dia 11 de fevereiro de 1979 marca a queda do xá Reza Pahlevi, poderoso monarca ditador iraniano, derrubado por uma revolta popular. Era o começo também do regime dos aiatolás, primeiro com Khomeini e hoje com o líder espiritual supremo Ali Khamenei. O atual presidente, Mahmoud Ahmadinejad, foi reeleito em 2009, com apoio direto de Khamenei. A campanha eleitoral foi sangrenta, a oposição e os protestos populares foram duramente reprimidos. O Irã hoje vive uma intensa disputa interna pelo poder – Khamenei e Ahmadinejad já não se entendem tão bem e os atritos são cada vez mais públicos e agressivos. A linha política de ambos não difere muito e ambos defendem o controverso programa nuclear iraniano. O braço de ferro está na escolha do novo presidente, em junho, por eleições diretas. O professor de Relações Internacionais Renatho Costa, da Universidade Federal do Pampa, a Unipampa, conhece bem o Irã, onde fez pesquisas para sua tese de doutorado. Ele explica como se deu a revolução de 1979 e analisa o quadro político do país hoje. 

   
Acompanhe a entrevista    
 
 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

POR QUE "ARGO" VAI GANHAR O OSCAR?



Sul21, Opinião Pública, 05 de fevereiro de 2013.



Por Renatho Costa
A resposta para esta questão é muito simples: porque o cinema continua sendo a maneira mais simples de mostrar para o mundo quem é bom e quem é mau. Porque não adianta atuar em organismos internacionais e praticar ações que salvem milhões de pessoas se essas ações não se tornarem públicas – e mais, não adianta se tornarem públicas se não vierem embaladas em belas imagens, muita ação e uma trilha sonora que direcione a narrativa no intuito de perdermos a noção de quem é quem e aceitarmos apenas o que está sendo mostrado.
Por isso Argo vai ganhar o Oscar: porque retoma a antiga fórmula do cinema como produto de propaganda política para veicular um evento que poderia ser altamente questionável sob muitos aspectos, inclusive o diplomático. O que é mostrado como heroísmo e no final deixa o espectador tenso, nada mais é do que uma grande violação do Direito Internacional. Mas nada disso é apresentado desta forma, porque desde o início do filme já sabemos quem são os mocinhos e quem são os vilões.
Para alguém descuidado, ou que pouco conhece a história do Irã, poderia dizer que o filme não é unilateral, pois no início menciona que os EUA e a Grã-Bretanha tiveram responsabilidade na derrubada do primeiro-ministro iraniano Mossadegh, em 1953 (mas não dizem nada sobre a violação da soberania iraniana ocasionada pela Operação Ajax, chefiada pela CIA). Também disseram que o xá praticava tortura e tinha a Savak, tudo mostrado somente através de fotografias. Estas informações são expostas no início de um filme, num momento em que grande parte do público sequer está familiarizada com a problemática que será abordada. Ok, o Irã tinha um xá e agora tem um aiatolá! Títulos interessantes, mas tão exóticos para o espectador quanto um sultão de histórias de “Ali Babá e os 40 ladrões”…
E, depois de uma apresentação que mais parece “as mil e uma noites”, ficamos sabendo que o aiatolá Khomeini liderou uma revolução e logo vemos uma imensa quantidade de pessoas pelas ruas, gritando, numa língua que pouca gente conhece e não há legenda em inglês, tampouco em português, para sabermos sobre o que falam, exceto, mais adiante, quando será importante mostrar como os revolucionários iranianos são “idiotizados” ou “infantilizados”.
Tentemos entender o que se passava no Irã e o filme prefere omitir. Primeiramente, com a revolução em andamento, os EUA ainda pretendiam depor o governo islâmico e, na embaixada estadunidense (mesmo queimando e destruindo muitos documentos, foram encontradas provas de que os EUA planejavam outra ação como a Ajax, que depôs Mossadegh) não havia apenas diplomatas, como é dito: muitos eram espiões e pessoas que sempre trabalharam em sintonia com o governo do xá. Desse modo, a neutralidade do espaço diplomático da embaixada, em muito havia sido violada pela intenção dos EUA de conspirarem contra o governo instituído. Também, a generosidade do presidente estadunidense, Jimmy Carter, em receber o xá Reza Pahlevi não se deu porque ele estava com câncer, mas sim porque era um aliado dos EUA e o peso de um aliado sendo capturado pelos revolucionários, julgado e condenado faria (levando em conta a lógica de um mundo bipolar EUA x URSS) com que os demais aliados também colocassem em dúvida a segurança frente ao alinhamento – e devolvê-lo estava fora de cogitação. Sem contar que o xá detinha muitas informações sobre os EUA que não seriam interessantes serem difundidas.
Nada disso aparece no filme, apenas ficamos sabendo que ele tinha câncer e que, em uma entrevista, o xá diz que não sabia de torturas. Mesmo que em duas frases soltas alguns agentes da CIA questionem a necessidade de receber o xá no pais, não há ênfase nas aberrações que o xá provocou no Irã, exceto uma imagem de uma homem torturado no prólogo do filme – uma foto – e a informação de que a população empobreceu – ilustrada com a foto de uma criança. O xá de Argo não gera qualquer repulsa, porque não há necessidade de que o público entenda que a Revolução que ocorreu no Irã em 1979 não congregava apenas religiosos, mas que quase todos os segmentos sociais participaram da derrubado do governo do xá. Porém, isso não é interessante saber, melhor mostrar homens barbados e mulheres usando chador, ambos portando armas pelas ruas. Esse tipo de imagem constrói quem é bom e mau.
Evidentemente que, se formos aprofundar na análise da situação política que o Irã foi catapultado logo após a revolução, encontraremos muitos embates entre grupos que compartilhavam da proposta de derrubada do xá, mas não necessariamente pretendiam o estabelecimento de um regime islâmico. Pode-se dizer que houve perseguição de alguns grupos e muitas pessoas acabaram morrendo ou deixando o país. Mas não era com isso que os EUA estavam preocupados, nunca houve a preocupação com diretos humanos no Irã e o apoio ao governo do xá era um exemplo disso. Não havia instrumento de repressão mais violento que a Savak. Os EUA estavam preocupados com o risco de perderem o controle geopolítico da região além de não poderem mais contar com o petróleo produzido no Irã. E nada disso não é dito em momento algum.
Mas há muito mais, pois as câmeras de Affleck produzem imagens emblemáticas quando mostram as pessoas enforcadas e penduradas por guindastes ou mesmo quando uma “refém” estadunidense vê uma pessoa sendo executada na rua. Tudo isso é uma aberração para a população ocidental, que logo relaciona essas atitudes aos “bárbaros de barba” ou aos “senhores de roupa preta”. O exotismo faz com que eles sejam construídos como seres que não estão no mesmo nível de desenvolvimento dos ocidentais. E a cena no aeroporto serve para reforçar isso. Os soldados ficam “encantados” com os storyboards como crianças que leem gibis, ou mais ainda, pois os soldados ainda fazem gestos imbecis e agem como estúpidos frente à falsa equipe de produção do filme.
Contudo, o problema não reside no fato de enganar os soldados, pois isso poderia ser feito e ocorre em inúmeras situações e é um recurso dramatúrgico de muitos filmes. O problema é que, na cena final do aeroporto, os iranianos são bárbaros/bestializados, pois falam uma língua que só é expressa aos berros, esquecendo que também é a língua de poetas como Ferdowsi, um dos responsáveis pela preservação/difusão do farsi e reconhecido mundialmente pela qualidade artística de sua obra. Mas farsi é língua dos bárbaros e somente assimilada pelos dominadores para imporem sua vontade, haja vista um dos “reféns” utilizar seu conhecimento para enganar o idiotizado/infantilizado soldado iraniano.
Outra questão é emblemática no filme Argo, a partir do momento em que os “reféns” estão na embaixada canadense, toda a construção da narrativa é feita no sentido de que o espectador torça para que eles saiam da situação de perigo. Ninguém questiona o que os EUA estavam fazendo ali, se era legítima sua ação, apenas deve-se salvar os bons estadunidenses. Não se discute a atuação dos EUA no Irã, como se tivessem sido pegos de surpresa por um grupo de pessoas insanas que pensam apenas em matar!
É esperado que o filme aponte para a ilegitimidade de os iranianos invadirem uma embaixada – mas, por outro lado, não trata de modo análogo o ato de um espião falsificar documentos, entrar e sair do país ilegalmente e mesmo contar com o apoio de outro Estado para esconder fugitivos. O grande problema é que, para salvar os mocinhos é possível utilizar todos os recursos possíveis e imaginários, e mais ainda, não fazer qualquer questionamento acerca dos métodos, haja vista os fins serem nobres. Inclusive a funcionária iraniana da embaixada canadense mente para preservar os falsos diplomatas. Não que isso fosse impossível de ocorrer, mas neste caso tenta-se desconstruir os valores islâmicos da mulher, uma vez que ela fala e age em nome de Deus, mas mente para salvar os mocinhos. Então, por conseguinte, Deus está do lado dos mocinhos e não dos iranianos… se é que é possível dizer Deus esteja de algum lado!
Mas o filme vai além quando quer tratar de heroísmo, pois um agente é condecorado por ser um espião e violar leis de outro país. Mas esta construção do herói não para por aí, uma vez que no início do filme, antes de o agente da CIA praticar a ação, está com o casamento abalado, distante do filho etc – ou seja, com uma família desestruturada. Assim que consegue concluir sua missão e resgatar os “reféns”, volta para casa, é recebido pela esposa com um abraço carinhoso (e a bandeira dos EUA tremulando no segundo plano da cena) e isso leva à conclusão de que o bem venceu o mal. Aos heróis cabem todas as glórias, a condecoração e a família de volta. Ele fez o certo – não há como ter outra conclusão, se tudo deu certo no final.
Enfim, com tanto heroísmo, os soldados iranianos não poderiam aparecer pela última vez senão como um bando de idiotas correndo atrás de um avião para impedir sua decolagem. E, depois disso, já dentro da aeronave, temos o cumprimento do herói, pois um dos “reféns” (aquele que nunca acreditou que a ação daria certo) sai de seu assento e vai até o agente da CIA para cumprimentá-lo. Também ficamos sabendo que já saíram do espaço aéreo iraniano, pois já podem beber. Uma crítica sutil, mas eficaz, pois apresenta a “liberdade” vinculada ao consumo de álcool, uma vez que os islâmicos são proibidos de ingerir bebidas alcoólicas. Os fabricantes de destilados e cervejas agradecem pela propaganda, sem contar o cigarro, que está presente no filme inteiro… E o herói sempre fuma.
Por fim, conclui-se que: nada mais justo que o cinema estadunidense ter sido utilizado nessa ação de invasão/resgate, uma vez que historicamente ele já invadiu/alcançou o mundo inteiro no intuído de difundir o american way of life e o soft power de Joseph Nye. A própria capacidade de reconstruir a história possibilita ao diretor/produtor/roteirista a habilidade de mostrar apenas o que é interessante. Assim, apesar de no final do filme ouvirmos as declarações do ex-presidente Jimmy Carter, não é mencionado em momento algum que ele programou outra ação militar para salvar os reféns na embaixada e foi um grande fracasso, que ele viu-se tão mal que não conseguiu reeleger-se, abrindo caminho para a Era Reagan. Também não é dito que os EUA ajudaram a desencadear a guerra Irã-Iraque (1980-88) e iniciaram a política de boicotes aos iranianos. Nada disso é dito nas informações finais – apenas vemos heróis e condecorações. Heróis de tão alta estirpe que aceitam o ocultamento de seus atos como algo necessário para a nação.
Frente a todos estas questões, a conclusão é simples: como um projeto de propaganda, Argo é incrível – como documento, porém, é espúrio. Mas, num momento em que o Irã necessita ter sua imagem ainda mais destruída, nada melhor do que assistirmos a um filme com bárbaros pulando muros, gritando numa língua incompreensível e vestindo-se de modo exótico: assim, saberemos muito bem quem é o bom e o mau. Se um povo como o iraniano quase cometeu uma atrocidade com seis “diplomatas” estadunidenses, o que poderá fazer com uma bomba nuclear em mãos? Essa é a outra função do cinema, nos mostrar quem são os mocinhos e os bandidos, pois mesmo nos westerns eles podem ser difíceis de identificar e é necessário que alguém nos guie para não “aprendermos errado”. Com isso, só nos resta aguardamos até o dia 24 de fevereiro para ouvirmos: “And the Oscar goes to… Argo!”
Renatho Costa é bacharel em Relações Internacionais, Mestre e Doutorando em História Social (FFLCH-USP), professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e especialista em Oriente Médio. 
Blog: www.rcacademico.blogspot.com 
E-Mail:renathocosta@unipampa.edu.br
Fonte: http://www.sul21.com.br/jornal/2013/02/por-que-argo-deve-ganhar-o-oscar/ 

sábado, 22 de dezembro de 2012

A ESTRANHA LÓGICA ILÓGICA DA ONU COM ISRAEL: O "SIM" DO MUNDO QUE NÃO SIGNIFICA "SIM"



Sul21 - Mundo - 22 de dezembro de 2012




Em Porto Alegre, o Fórum Mundial Palestina Livre ocorreu no mesmo período em que se decidia status dos palestinos na ONU | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Renatho Costa *
Especial para Sul21
Em 28 de novembro de 1947, a Assembleia Geral da ONU reuniu-se em sessão presidida pelo brasileiro Osvaldo Aranha para deliberar, através da Resolução 181, sobre o Plano de Partilha da Palestina. Em tese, o mundo – através da recém criada Organização das Nações Unidades, sucessora da falida Liga das Nações – atribuía aos estados membros resolver um problema que havia sido agravado pelo Sistema de Mandatos imposto à região do Oriente Médio após a I Guerra Mundial. A Grã-Bretanha, mandatária da região da Palestina, já vivenciando fortes atritos com grupos paramilitares locais, se eximia completamente de qualquer responsabilidade pela tensão criada e esperava que o ato da ONU trouxesse a paz – pelo menos como havia no período do Império Otomano – para a Palestina. É certo que a perspectiva democrática da ONU se impôs sobre a vontade de todos os países árabes que estavam presentes à histórica sessão, haja vista eles terem se posicionado absolutamente contrários à proposta que viria a ser vencedora. Naquela ocasião, o “sim” da maioria significou “sim” para a “criação de dois estados”, um indício de que o ideal para a ONU não necessariamente se configurava no ideal para os árabes. A Palestina foi dividida – porém, não conforme a resolução 181 impôs.
Os acontecimentos posteriores à resolução 181 são lembrados constantemente e a tão almejada solução para a “Questão Palestina” nunca se configurou em realidade. A proposta de criação de dois estados na região – uma árabe e outro judeu – transformou-se em letra morta, uma vez que após a guerra de 1948, apenas um estado emergiu: Israel. Com o tempo, as possibilidades para que o segundo estado palestino viesse a existir foram escasseando, devido à desfiguração de um território viável.
Depois de 65 anos, no mesmo 28 de novembro, é levada à Assembleia Geral da ONU a proposta de alteração do status dos palestinos junto àquela instituição, de “entidade observadora”, para “Estado observador não-membro”. Em 2011, os palestinos já tinham tido negado, pelo Conselho de Segurança da ONU, o direito de integrar a instituição como “membros permanentes”. Com isso, o líder da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas entendia que a sessão de 2012 seria a última chance para que a comunidade internacional expusesse seu real interesse em colocar um fim no conflito com Israel. Para tanto, precisaria que a ONU, com a mudança de status dos palestinos, fornecesse a “certidão de nascimento” para a Palestina. Com 138 votos favoráveis à proposta, 41 abstenções e 9 contrários, o “sim” da instituição que representa os valores universais das nações, não se configura, necessariamente, em um “sim” para a criação do Estado Palestino. E esta é, justamente, a questão.

Em sessão histórica em outubro, ONU aceitou Palestina como estado observador não membro com 138 votos favoráveis | Foto: UN Photo / Eskinder Debebe
Dentre os nove estados que negaram o direito de a Palestina ter sua “certidão de nascimento”, estão Estados Unidos e Israel. Mas qual seria o problema em criar um estado palestino se até mesmo o presidente Obama expressou seu entendimento neste sentido? Que risco haveria para Israel com o surgimento de um estado palestino, já que deixaria de tê-los sob “sua responsabilidade”?
Parte da resposta a essas perguntas foi dada no dia seguinte à votação na ONU, quando o Estado de Israel mostrou para o mundo que continuará com sua política de ampliação dos assentamentos sobre o território palestino. Inclusive, uma mesquita foi destruída e essas imagens viajaram o mundo através de noticiários. Com isso, configura-se que o Estado de Israel não tem interesse que surja um estado palestino na região, pois Eretz Yisrael não estaria delimitada ao que a ONU determinou em 1947, tampouco à configuração pré-1967, como muitos simpatizantes da criação de “dois estados” defendem.
Por mais que as instituições internacionais se mobilizem na busca por uma solução para a questão palestina, isso somente se configurará em algo fático se ocorrer uma de duas possibilidades. Primeiramente, é preciso que os israelenses queiram uma solução que também atenda aos interesses palestinos. E historicamente se nota que, seja qual for o partido político que governe Israel, a política de ampliação de território nunca deixou de existir. Assim, dificilmente haverá uma conjuntura política no próximo pleito eleitoral que eleja algum grupo comprometido com a mudança deste “projeto israelense”. O sistema político israelense possui algumas peculiaridades e, para um partido manter a estabilidade e governar, é necessário fazer alianças. Assim, certos grupos conservadores – inclusive com poder para colocar Avignor Lieberman como Ministro das Relações Exteriores – funcionam como “fiéis da balança” e não estão dispostos a atender resoluções da ONU que versem contra seus princípios e interesses.

No dia seguinte à votação na ONU, Israel anunciou intenção de ampliar assentamentos em território palestino | Foto: Al Jazeera English / Flickr
Em segundo lugar, é providencial salientar que historicamente o Estado de Israel goza de salvo conduto para não respeitar decisões da ONU. Exemplo máximo disso está no fato de que permaneceu em território libanês por mais de dezoito anos, ocupando aproximadamente 10% daquela região, e, mesmo com inúmeras resoluções da ONU exigindo sua saída, lá esteve até 2000, quando o Hezbollah desferiu uma forte ação que o levou a deixar o país. Quem referenda a atuação de Israel são os Estados Unidos, devido, dentre outros aspectos, à necessidade de manter sua influência na região do Oriente Médio. Desse modo, qualquer tipo de mudança perpassa pelo governo estadunidense.
Então, o que poderia ser alterado com o novo status dos palestinos no sistema internacional? Na verdade, essa alteração pode gerar maior tensão sobre os Estados Unidos, pois, de certo modo, coloca em xeque a própria legitimidade da indistinta defesa dos atos israelenses, uma vez que os estadunidenses terão de se afastar da retórica de “defesa de valores e legalidade” para acastelar os interesses de Israel. Tendo como base a preocupação geopolítica estadunidense com a região, dificilmente haverá uma ruptura entre os dois países. Mas a aliança poderá ficar desgastada se o próximo primeiro-ministro israelense nortear suas ações pelo modelo de governo de Netanyahu.
Benjamin Netanyahu
Governo de Benjamin Netanyahu tem insistido que apenas negociações diretas entre Palestina e Israel podem levar à paz | Foto: Remy Steinegger / World Economic Forum
Hoje, o Estado de Israel, sob a alegação de “preservação de sua segurança”, controla todas as fronteiras da Faixa de Gaza – exceto a terrestre, pelo Egito – e Cisjordânia. A possível criação de um estado palestino tornaria essa ação inadmissível diante do Direito Internacional, no qual a soberania territorial é algo inviolável. Então, não há interesse na criação deste estado. Também, a ingerência sob os aspectos econômico-comerciais palestinos deixaria de existir. E o mais complicado, haveria a necessidade de estabelecer fronteiras para ambos os países e discutir o status dos árabes que vivem em Israel. Nenhuma destas questões está na pauta de interesses dos governantes israelenses.
Desse modo, enquanto o Estado de Israel age como se a ONU não tivesse se pronunciado acerca do status palestino, Hamas e Fatah buscam aproveitar esse momento para demonstrar afinidades. Inicialmente o Hamas não demonstrou tanto interesse pela mudança de status dos palestinos, contudo, Khaled Meshaal, sua liderança, acabou entendendo que novas possibilidades de atuação dos palestinos no cenário internacional se abririam com esta alteração. Principalmente a possibilidade de questionar a atuação do Estado de Israel frente ao Tribunal Penal Internacional (TPI), seja pela atuação nos assentamentos da Cisjordânia ou mesmo pelas ações militares contra os habitantes de Gaza – como as que ocorreram em 2008/2009 e 2012.
Mesmo que a situação no Oriente Médio não esteja tão confortável para o Estado de Israel como anteriormente, ainda é muito cedo afirmar que ocorrerão alterações substanciais na região, pelo menos no que diz respeito à criação de um Estado Palestino. Isso porque o processo que viabilizaria a criação deste novo estado perpassaria por sua delimitação territorial e, apesar de Obama inovar em seu discurso defendendo que sejam estabelecidas com base nas fronteiras de 1967, dificilmente suas ações ultrapassarão o campo da retórica. Até porque, conforme Mearsheimer ressalta, o lobby israelense nos EUA não deixaria que isso acontecesse. Lembrando ainda que, se a Autoridade Nacional Palestina (ANP) persistir em ações que visem deslegitimar a atuação de Israel no sistema internacional, os recursos financeiros estadunidenses poderão deixar de auxiliar a organização, fato esse que poderá fazer com que Abbas seja deposto e surja outra liderança mais alinhada aos interesses estadunidenses, ou seja, propensa a “negociar com Israel” a criação de um estado Palestino.
O posicionamento acerca de como os EUA e Israel querem que a situação permaneça ficou muito claro no pronunciamento da Secretária de Estado estadunidense, Hillary Clinton, quando afirmou que “Temos [talvez, apenas EUA e Israel] claro que apenas por meio de negociações diretas entre as partes de palestinos e israelenses [repetindo o discurso de Netanyahu] podem alcançar a paz que ambos merecem: dois Estados para dois povos com uma Palestina soberana viável e independente, vivendo lado a lado em paz e segurança com um Israel judeu e democrático” .

Ações da Autoridade Palestina podem levar a corte de recursos, o que dificultaria permanência de Mahmoud Abbas | Foto: UN Photo / Rick Bajornas
É fato que a mudança de status dos palestinos trouxe força para que a “Questão Palestina” voltasse à Agenda Internacional dos EUA, algo que havia sido abafado pela dita Primavera Árabe, pela Guerra da Síria”, a eleição da Irmandade Muçulmana no Egito, além dos problemas já convencionais da pauta como o “Irã Nuclear” e a Guerra no Afeganistão. De certo modo, o desdobramento destas questões também tem implicações no futuro do Estado Palestino, pois o Estado de Israel poderá potencializar ou reduzir sua função no Oriente Médio, fato esse que guarda relação muito próxima com a atuação estadunidense. Então, a força e empenho internacional para a criação de um futuro Estado Palestino, inclusive com apoio de importantesplayers, como Rússia e China, está relacionado às alterações que o Oriente Médio sofrerá nesses momentos posteriores.
Por fim, cabe ressaltar o estranhamento frente à reação da “criatura” ao seu “criador”. A ONU, que deu vida ao Estado de Israel a partir de uma proposta do Movimento Sionista, agora tem a legitimidade de suas ações questionada pelo primeiro-ministro israelense Netanyahu, quando afirma que “a única forma de conquistar a paz é por meio de negociações diretas sem condições prévias e não com uma declaração unilateral da ONU que não leva em consideração os imperativos de segurança de Israel”. E complementou: “a paz será alcançada apenas com acordos aceitos em Jerusalém [não utiliza Tel Aviv] e Ramallah, e não por uma decisão da ONU” . Por certo, se Netanyahu – ou membros do Movimento Sionista – proferisse esse discurso na sessão de 28 de novembro de 1947, talvez a história tivesse sido outra.
* Renatho Costa é professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e especialista em Oriente Médio. Blog: www.rcacademico.blogspot.com E-Mail:renathocosta@unipampa.edu.br
Fonte: http://www.sul21.com.br/jornal/2012/12/a-estranha-logica-ilogica-da-onu-com-israel-o-sim-do-mundo-nao-significa-sim/ 

sábado, 13 de outubro de 2012

"PODE-SE DISCUTIR SE NA REELEIÇÃO DE CHÁVEZ HOUVE PLENA DEMOCRACIA, MAS O SISTEMA DA VENEZUELA RATIFICOU TODO O PROCESSO"


Na última segunda-feira, 08 de outubro de 2012, foi confirmada a reeleição do presidente venezuelano, Hugo Chávez. Depois de ter superado um longo processo de luta contra o câncer, decidiu concorrer à reeleição no intuito de continuar o processo de estabelecimento da "Revolução Bolivariana".

No poder, desde 1999, Chávez já passou por situações extremamente difíceis na presidência, desde promulgação de uma nova constituição para o país, referendo e tentativa de golpe. Mas, para esse novo mandato, as dificuldades são outras, uma vez que o processo democrático sedimenta-se cada vez mais.

Apesar da vitória de Chávez, o candidato Henrique Capriles reforçou, em seu discurso de reconhecimento da derrota, que o cenário político na Venezuela é outro e que Chávez terá de governar para todos os venezuelanos, inclusive para os 44,9% que foram contra sua reeleição. Com isso, a Venezuela entra em outro momento de sua história e Chávez terá de fazer alterações em seu programa de governo para que gere estabilidade.

Sobre essas questões, conversei com a jornalista Cristina Coghi na última segunda-feira, 08/10. Abaixo segue o link com o áudio da entrevista.

"OS IRANIANOS NÃO SÃO CONTRA OS JUDEUS", DIZ ESPECIALISTA EM ORIENTE MÉDIO

Por: Illgner Geovanne
13 de outubro de 2012 às 12:15 pm | Postado em: Entrevistas, Notícias



O Irã é retratado pelos EUA e Israel como uma nação perigosa e inimiga da paz no Oriente Médio, assim como são classificados outros países da região. Apesar dos iranianos insistirem que o seu programa nuclear é para fins pacíficos, os norte-americanos e israelenses acreditam que o país está próximo de desenvolver uma bomba atômica.

Os EUA e seus aliados estão certos ou não?
Para tratar das questões que envolvem o Irã, o IAnotícia conversou com o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Renatho Costa. O especialista em Oriente Médio e terrorismo esteve no país persa entrevistando aiatolás, professores e parlamentares.
(IAnotícia) – Os EUA e Israel tem motivos para acreditar que o Irã está construindo uma bomba nuclear?
(Renatho Costa) – Se considerarmos apenas os aspectos técnico-científicos, é provável que o processo de enriquecimento de urânio possa viabilizar-se no futuro (e aqui a especulação temporal também se configura em parte da estratégia que visa atender outros pressupostos, e não estão ligados diretamente a uma análise sobre o desenvolvimento científico) em tecnologia suficiente para a produção de armas nucleares. Tudo depende do interesse de quem desenvolve esta tecnologia e das condições pelas quais este país é submetido. É conveniente para EUA e Israel adotarem a política do “risco Irã”, pois, com isso, tentam construir o entendimento de que o Irã está desenvolvendo a tecnologia nuclear para alcançar a produção de armas e iniciar uma guerra. Historicamente, o desenvolvimento desta tecnologia somente tem sido utilizado para mudar o status quo [situação atual] de quem a detém, no sistema internacional, nunca para desencadear uma guerra (exceção feita aos EUA que utilizaram armas nucleares no final da Segunda Guerra, contra o Japão). Até porque, é notório o conhecimento de que os possíveis adversários de um suposto “Irã nuclear” também detenham a tecnologia e não hesitariam em contra-atacar utilizando armamentos muito superiores. Com isso, saliento que o “motivo para acreditar” guarda maior relação com o perigo de mudança geopolítica na região do Oriente Médio do que risco real de um futuro ataque iraniano.
(IA) - Como o programa nuclear iraniano é tratado internamente? Existe algum tipo de 
propaganda que essa tecnologia será positiva para a população, como o governo brasileiro faz sobre o pré-sal?
(RC) – Existe propaganda nesse sentido, sim. Mas até onde pude perceber, ela é tratada de duas maneiras, ou seja, primeiramente enfatiza-se a necessidade do desenvolvimento desta tecnologia para fins pacíficos, pois o país tem problemas com a geração de energia. Fora o petróleo, não há outra forma de produção, e, nesse sentido, a energia nuclear seria uma saída interessante para o desenvolvimento do país. Ainda, como os embargos econômicos impedem que o Irã tenha acesso a muitos produtos internacionais, há a necessidade de que ali sejam criadas condições para sua produção, e, para tanto, muitas vezes a tecnologia nuclear é um requisito básico. Então, há a propagação de que o Ocidente não pode interferir ainda mais no desenvolvimento do Irã. Todas as dificuldades que o país vivencia no momento têm origem nas restrições que são impostas internacionalmente, contudo, mesmo assim, ainda é perceptível o desenvolvimento do país (até, em alguns aspectos, reforçando os preceitos religiosos xiitas), por isso o governo iraniano vincula o desenvolvimento da tecnologia nuclear à própria preservação da soberania do país. Não se trata, para o governo, de uma intervenção (dos EUA) que vise “a segurança regional”, mas, sim, uma ação contra o desenvolvimento do país. E a grande maioria da população iraniana reage positivamente ao clamor do governo, pois acaba entendendo como uma questão de manutenção de sua soberania. Não pude perceber, tampouco li qualquer documento (oficial ou através de jornais, revistas, etc.) que sugerisse que o governo iraniano tenha interesse em desenvolver armamentos nucleares. Se há a intenção, e não posso descartá-la, uma vez que pode ser tratada dentro de outras instâncias de governo, não é trazida à população para buscar endosso.
(IA) – Israel considera o Irã como uma ameaça, e os iranianos, como veem os israelenses?
(RC) – O Irã não reconhece a legitimidade de o Estado de Israel existir nas circunstâncias em que foi criado. Isso, frequentemente é propagado pelo presidente Ahmadinejad e pude constatar junto às pessoas que tive a oportunidade de entrevistar (alguns aiatolás, professores, parlamentares, etc.). O grande questionamento acerca do Estado de Israel é que ele foi criado a partir da expropriação de um povo (palestino) e que esse ato foi resultado da política do Ocidente de enfraquecer os muçulmanos. Além de os xiitas considerarem de suma importância a região da Palestina para todos os muçulmanos. Mas é importante salientar que os iranianos não são contra os judeus, a crítica feita à criação do Estado de Israel é focada nos sionistas, que, para os iranianos, foram os grandes responsáveis pela violência ocorrida na Palestina no início do século passado e, nos dias de hoje, para a preservação de um modelo de estado que restringe os direitos dos palestinos.
(IA) – A grande mídia passa uma imagem de que os árabes e persas são antiamericanos e terroristas. Como os iranianos consideram os EUA?
(RC) – Existem pontos de vistas distintos sobre a atuação dos EUA, principalmente oriundo da capital do país, Teerã, no entanto, a visão do governo e da grande maioria da população é de que os EUA são um agente desestabilizador da região e, em muitos casos, utilizam a tática terrorista para impor seus interesses. Muito constantemente os EUA são tratados como um país que pratica o “terrorismo de estado”, e, para justificar essa argumentação, lançam mão de inúmeros exemplos de atuação dos EUA na política interna de países do Oriente Médio para satisfazer seus interesses. O próprio Irã foi vítima da ação dos EUA em 1953, quando a CIA elaborou o golpe que depôs o primeiro-ministro Mossadegh e preservou o xá no poder. Sobre esse evento e o posterior apoio que os EUA deram ao governo ditatorial do xá, há repercussão negativa ainda nos dias de hoje. Constantemente os EUA são acusados de atacarem o Islã, tendo em vista sua atuação pontual em países como o Egito, Líbano, Iraque, Afeganistão, além do apoio à Arábia Saudita e Bahrein (em ambos os países há ditaduras sunitas, muito severas aos xiitas). Ainda há uma crítica muito severa quanto à atuação dos EUA no intuito de fragilizar a cultura xiita iraniana através do patrocínio de redes de TV e rádios que produzem programas em farsi [língua persa] que são transmitidos, via satélite, para o Irã. Muitas dessas emissoras de rádio e TV estão instaladas nos EUA e produzem programas “ocidentais” para serem consumidos pelos iranianos. Sob o ponto de vista de alguns iranianos, isso se configura numa tentativa espúria de destruir uma cultura local. Essa questão é mais complexa e ainda estou desenvolvendo algumas pesquisas nesse sentido, mas, de fato, há inúmeras emissoras criadas que não poderiam sobreviver sem auxílio financeiro de algum estado ou instituição que vise exclusivamente enfraquecer o governo iraniano, uma vez que toda a produção é voltada para um país e nada é comercializado nesses veículos. Sob a perspectiva do Mercado, é muito difícil imaginar quem poderia investir num produto que não apresenta qualquer retorno financeiro para seu investidor. Isso é o que ocorre com essas emissoras. 
(IA) – Na sua opinião, seria legítimo os iranianos se armarem com uma bomba nuclear para aumentar a defesa contra os avanços norte-americanos no Oriente Médio?
(RC) – Entendo que seja altamente questionável o modelo que permite que alguns estados detenham essa tecnologia e outros não. O processo que levou a esse modelo subentendia a criação de compensações para que determinado estado abrisse mão de trilhar seu caminho no intuito de desenvolver armamentos nucleares e, consequentemente, “ceder o direito de se defender em iguais condições”. Hoje, o Irã é um país excluído economicamente, contudo, assinou o tratado de não proliferação de armas nucleares e constantemente ratifica seu posicionamento. Contudo, digamos que ele quisesse romper com esse tratado e passasse a desenvolver armamentos nucleares, entendo que seria questionável a imposição de sansões. Até porque, como mencionei anteriormente, Paquistão, Índia, China, Rússia e Israel possuem armamentos nucleares e fazem parte da mesma região. A obrigação do Estado é proporcionar segurança para seus nacionais e o Irã está entre alguns estados hostis e outros que poderiam assim se transformar, caso houvesse uma mudança de conjuntura, assim, é muito complicado impor a um país a obrigação de não desenvolver armas nucleares quando o Estado de Israel, que sequer é signatário do tratado de não proliferação de armas nucleares, possui incalculáveis ogivas nucleares. Israel cobra um procedimento por parte do Irã, contudo, atua de modo completamente contrário. Ainda, dentro da lógica de um sistema internacional anárquico, não é possível afirmar que um estado seja mais confiável que outro, pois todos atuam a partir de perspectivas pragmáticas.
(IA) – As últimas informações divulgadas sobre o Irã mostram que o país enfrenta um grave problema econômico, devido as sanções aplicadas pelos EUA e Europa. Protestos em massa já começaram a ocorrer. O Irã pode sofrer uma revolução e o governo de Ahmadinejad pode ser derrubado?
(RC) – Existem movimentos contra o posicionamento do presidente Ahmadinejad, mas seu governo já está no final do mandato, então o grande questionamento que se faz é quem será seu sucessor e se manterá essa política de enfrentamento ao Ocidente. Lembrando que o ex-presidente Khotami tentou iniciar um processo de “diálogo entre civilizações”, mas não conseguiu avançar, devido às restrições impostas pelo Líder Supremo, aiatolá Khamenei. Mas sobre essa questão, tive a oportunidade de entrevistar o aiatolá Hodavi, no ano passado, e o questionei sobre o porquê de o “diálogo entre civilizações” ter sido interrompido, e a resposta dele foi clara e objetiva: “Não somos contra o diálogo, apenas não queremos que seja um monólogo entre civilizações”. Para Hodavi, o processo imposto pelos EUA e Ocidente (de um modo geral é como tratam seus adversários) visa impor uma agenda ao Irã e suprimir sua liberdade. Por essa razão que dificilmente grupos minoritários que visem uma maior aproximação entre Irã e Ocidente conseguirão ganhar espaço na política iraniana. Qualquer que seja o próximo presidente, não entendo que seja possível uma aproximação imediata, até porque o poder político-militar está concentrado nas mãos dos aiatolás e não tem razão para cedê-lo neste momento.
(IA) – Informações de veículos de imprensa como a CNN e Reuters indicam que o Irã está ajudando o governo sírio de Bashar al-Assad na guerra contra os rebeldes. Qual seria o interesse do Irã nesse auxilio?
(RC) – Para responder essa questão temos de nos reportar à situação geopolítica do Oriente Médio. A partir do início da década de 1980 houve o surgimento do Hezbollah (grupo xiita) no Líbano. Foi um período em que o país vivenciava uma guerra civil (1975-1990) fratricida que ainda contava com a participação da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), Israel, ONU, Síria e inúmeras milícias dentro do conflito. Nesse cenário completamente caótico, o alinhamento pragmático entre Síria e Irã acabou surgindo para preservar a influência de ambos no Líbano. Por um lado, o Hezbollah (por serem xiitas, tinham como líder religioso o aitolá Khomeini, líder supremo da Revolução Iraniana) recebia apoio material do Irã através da Síria e a esta também se beneficiava das ações da organização libanesa, principalmente na luta contra o Estado de Israel. Posteriormente, com o final da guerra civil libanesa, a Síria estreitou ainda mais seu relacionamento com o Irã, pois o isolamento dos iranianos no sistema internacional trazia poucas portas para o país continuar atuando. Em contrapartida, o Irã passou a apoiar institucionalmente o governo de Assad e fornecer suporte militar. Ambos têm Israel e EUA como inimigos e, nesse sentido, uma aliança programática foi construída e vem sendo mantida. Se, de um lado os “rebeldes sírios” são patrocinados por vários países do Ocidente, por outro, o Irã continua a apoiar a Síria porque a substituição de Assad por qualquer outro governante que esteja alinhado aos EUA alterará a geopolítica local e deixará o Irã ainda mais isolado. Essa é uma relação fundamentada em interesses políticos recíprocos, uma vez que não fazem parte do mesmo grupo religioso, pois Assad é alauíta e os iranianos, xiitas. O Irã tentou criar condições para que o governo de Assad fosse transmitido para algum sucessor que preservasse as relações com o Irã, no entanto, a situação não permitiu e o conflito teve início. Por razões semelhantes, Rússia e China não tem interesse em autorizar o uso da força contra a Síria, uma vez que o governo de Assad representa um antagonista de peso contra EUA e Israel no cenário do Oriente Médio.
Renatho Costa
Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Pampa (Unipampa)
Especialista em Oriente Médio e Terrorismo
E-mail: renathocosta@unipampa.edu.br
Blog: www.rcacademico.blogspot.com
Twitter: @renathocosta
IAnotícia

terça-feira, 3 de julho de 2012

LANÇAMENTO DO LIVRO "FRONTEIRAS EM MOVIMENTO"

O Grupo de Pesquisa INTEGRAÇÃO E CONFLITOS NAS ZONAS DE FRONTEIRAS, formado por Professores e Professoras da Universidade Federal do Pampa, e, vinculado ao CNPq, lança o livro FRONTEIRAS EM MOVIMENTOS pelo Paco Editorial.



Onde reside a fronteira? Apesar de esse termo ser muito comumente utilizado em sua acepção geográfica, Fronteira não se limita a separar um território de outro, muitas vezes, inclusive, pode ter o sentido contrário. No intuito de abranger as múltiplas possibilidades que o conceito de Fronteira pode assumir, o Grupo de Pesquisa “Integração e Conflitos em Regiões de Fronteira”, vinculado à Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), apresenta sua coletânea de artigos que procura problematizar essa questão. Abordagens das mais díspares, como a fronteira entre a legalidade e a atuação do crime organizado, ou mesmo a fronteira entre o desenvolvimento e o subdesenvolvimento da região do pampa, encontram-se nessa coletânea. Ainda, a geopolítica de Mackinder é revisitada para entender a importância e as tensões na Ásia central, ao mesmo tempo em que a fronteira entre as religiões é objeto de análise, haja vista a importância que o tema assumiu a partir do “choque de civilizações”. O continente africano também não é esquecido nessa abordagem sobre a Fronteira, para tanto, a política internacional acaba sendo um parâmetro para analisar a barreira criada entre a África e os demais continentes. Sobre a região do pampa são propostas análises que versam sobre as cidades gêmeas Santana do Livramento-Rivera, também, sobre o sentimento nacional na região, o meio-ambiente, o desenvolvimento econômico e a visão muito particular da mídia local. Abordagens que, muitas vezes, extrapolam suas fronteiras e tendem a se integrar para alcançar seu entendimento.

Artigos
I - FRONTEIRAS, SIGNIFICADOS E VALOR
Autor: Fábio Régio Bento

II - ERA UMA VEZ NA FRONTEIRA: O MITO DA ZONA "FORA DA LEI"?
Autor: Renatho Costa

III - CIDADANIA FRONTEIRIÇA: DAS CONCEPÇÕES MODERNAS À CIDADANIA CONSTITUÍDA NA FRONTEIRA ENTRE BRASIL E URUGUAI
Autoras: Daniela Vanila Nakalski Benetti e Nícia Pereira de Araujo

IV - POLÍTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE NA FRONTEIRA BRASIL-URUGUAI
Autores: Gleicy Denise Vasques Moreira Santos e Rodrigo Alexandre Benetti

V - IDENTIDADE E INTEGRAÇÃO NA FRONTEIRA: UM ESTUDO SOBRE A COMUNIDADE ÁRABE-PALESTINA DOS MUNICÍPIOS DE SANTANA DO LIVRAMENTO E RIVERA
Autores: Anna Carletti e Ricardo Lopes Kotz

VI - JORNAIS DE FRONTEIRAS E SUAS RETÓRICAS BILÍNGUES NO RIO GRANDE DO SUL: MÍDIA IMPRESSA A SERVIÇO DO LEITOR
Autor: Geder Parzianello

VII - A NAÇÃO NAS FRONTEIRAS LONGÍNQUAS: SENTIMENTO NACIONAL DOS PAMPAS AO LAVRADO
Autor: Victor Hugo Veppo Burgardt

VIII - TERRITÓRIO DE FRONTEIRA, DESENVOLVIMENTO E AMBIENTE: O PROJETO URB-AL PAMPA
Autores: Ana Monteiro Costa e Guilherme F. W. Radomsky

IX - LIMITES E FRONTEIRAS NA ÁFRICA: IDENTIDADES, HISTÓRIAS E POLÍTICA INTERNACIONAL
Autores: Kamilla Raquel Rizzi e Rafael Balardin

X - FRONTEIRAS DO HEARTLAND CLÁSSICO E PERCEPÇÕES DE SEGURANÇA: GOVERNANÇA INTERESTATAL COOPERATIVA NA ÁSIA CENTRAL
Autor: Flávio Augusto Lira Nascimento

XI - FRONTEIRAS ENTRE AS RELIGIÕES – RELAÇÕES INTERNACIONAIS E RELIGIÕES, E O CASO ESPECÍFICO DO MOVIMENTO DOS FOCOLARES COMO MOVIMENTO DE FRONTEIRAS
Autores: Anna Carletti e Fábio Régio Bento


Adquira seu exemplar em: